ou Caso Borja

RACISMO EXISTE
Prova número 04: Borja Imobiliária – Salvador/BA

Todo mundo sabia que não ia ser fácil. Lembramos a ela todas as questões envolvidas na jornada para alugar um apartamento em Salvador, acrescidas aos seus já declarados desejos: local, segurança, perto do trabalho, ao menos dois quartos, de preferência uma varanda, um vento fresco entrando pelas janelas. Tudo isso e ainda um preço bom. Ela precisava estar disposta a bater pernas, entre imobiliárias, entre prédios, entre porteiros que de repente soubessem de uma oportunidade bacana. Tudo por um canto que pudesse ter a própria cara e ser um justo lugar de chegada e partida e descanso e preparo para outras jornadas. Tudo valeria a pena, afinal, estava em Salvador, moradia quiçás definitiva depois de um namoro de férias com a cidade de ao menos cinco anos.

Mas ninguém pensou que talvez o seu sotaque pudesse ser um problema, ou o fato de ser mulher, ou o fato de ser negra.apartamento

A moça veio de Recife. Lá, para os desavisados, o “t” e o “d” são pronunciados sem chiados, como se sem floreios pudessem ser mais diretos e cantados ao mesmo tempo, um outro tipo de sonoridade. Entre caminhadas e jornais achou enfim o que parecia ser o lugar perfeito, com vários requisitos preenchidos. Foi até a imobiliária, a dita, a cuja, Borja, que fica ali, na Barra, distinto bairro soteropolitano. Conversou com os funcionários, que foram gentis, preencheu formulários, providenciou documentos, foi e voltou algumas vezes como é de praxe para a nossa boa e velha burocracia.

No que parecia ser a última ida, com tudo dentro dos conformes, numa ansiedade de encher os olhos, atendeu à moça primeiro o funcionário de sempre. Até que, seguindo o protocolo, o dono da imobiliária foi chamado a conhecê-la. Olhou-a de cima a baixo. Mediu-a e encaixou-a em algum tipo de critério invisível, não escrito entre as muitas exigências já colocadas anteriormente. O homem, do alto do lugar em que se colocou, num tom arrogante, começou a apresentar outras exigências: “não tem carro? Ah, vai precisar de dois fiadores! E um deles precisa ser funcionário público, mas não traga soldado raso não, tem que ganhar pelo menos R$8.000,00 por mês. Trabalha pra uma ONG? Aff!”

Ficamos pasmos. Que critérios o senhor Borja leva em consideração na hora de decidir o tom de voz que usa, quantos fiadores vai exigir? Que bens vai checar se o outro tem ou não: carro, anel de brilhante, iate? Será a cor dos olhos do locatário ou locatária? Se fosse um homem teria feito igual? Se fosse um homem branco ou uma mulher branca teria ousado igual? Perguntas que permanecem no ar, não em suspenso, afinal, ninguém acredita em pôneis cor de rosa….

Keu Apoema