RACISMO EXISTE
Prova número 08: Nosso prazer pelo amorenar.
Estava comprando chinelos. E explicava às minhas companheiras de prosa e passeio porque eu não compro sandálias Ipanema. Propaganda racista, lembrei, aquele comercial, bandos de mulheres brancas jovens e magérrimas, uma única mulher negra lá no canto. Enfim, já contei este enredo uma vez, não vale repetir. De repente não mais que de repente, uma senhora me cutucou pedindo desculpas por interferir na conversa alheia e emendou: “ah, mas isso aconteceu porque a propaganda foi feita para as mulheres de Porto Alegre, lá, a maioria é assim!”
Juro pela Deusa! Se não foram exatamente estas as palavras, foi exatamente esta a fala. No meio ainda de minha perplexidade, retruquei: “É, mas a propaganda passa no Brasil todo! Inclusive aqui na Bahia! Óa só!” Ela, a senhora, sem dizer um adeus foi embora murmurando um vago e tímido “é verdade…”. Eu, que queria mesmo era falar de morenos e morenas, resolvi batizar este tipo de atitude de amorenar, coisa fato quiçás troça fantasia ilusão que se repete incessantemente em inúmeras esquinas casas bares deste imenso país chamado Brasil.
Amorenar é disfarçar é desconversar é fazer de um tudo pra não encararmos a verdade simples e direta: vivemos num país racista e, ora veja, somos racistas. Por que vamos entrar neste assunto? Aqui todo mundo é igual! Porto Alegre é Brasil, Brasil é Porto Alegre. Inclusive, meu melhor amigo é negro! Aí certa pessoa enxerga outra pessoa, enxerga sua pele breu e chama “ô moreno” “ô morena” com medo de ofender se a revelasse negra. Amorenar é mergulhar a questão racial em tudo o que ela tem de cotidiano e político em um mar de imprecisão, de fuga e, porque não dizer, de certa covardia.
Camila Martins, na Caros Amigos de junho deste ano, começa assim sua matéria, falando em mulheres de coragem: “Ana é a responsável pela limpeza do centro social de uma igreja na grande São Paulo. Morena bonita, beirando os 35 anos…” Eu desafio. Quem realmente enxergou a cor da pele dessa mulher? Que cor enxergou? O lugar de onde ela fala por acaso deu mais ou menos melanina à sua identidade?
Chamo meu melhor amigo de moreno mesmo enxergando sua pele negra breu noite, eu amoreno. Alisas os cabelos crespos de tua menina com mil químicas sonhando com os fios rentes de Sandy, tu amorenas. Afirma que aquela figura nem precisa se preocupar com essa coisa de racismo, afinal, ela nem é tão negra assim ou negra o suficiente ou negra clarinha, ele ou ela amorena, pode se preocupar muito. Somos inundados por milhares de imagens produzidas pela mídia de famílias homens mulheres crianças brancas como se fossem o mais fiel retrato do Brasil – tipo tudo é Porto Alegre – e as consumimos como absolutamente naturais, nós amorenamos. Pedis para não entrar em conversas conflituosas sobre racismo, cabelos, cotas, desigualdade, ai que chato, amorenais. Sonham eles ou elas, como sonha Ali Kamel, que toda esta história não passa de uma conspiração de pessoas neuróticas que não sabem aproveitar o melhor de nossa afamada cordialidade, nossa democracia racial, eles e elas amorenam.
Disfarço. Foges. Engana-se. Escondemos. Invisibilizais. Acovardam-se.

RACISMO EXISTE
Prova número 08: Nosso prazer pelo amorenar.


Estava comprando chinelos. E explicava às minhas companheiras de prosa e passeio porque eu não compro sandálias Ipanema. Propaganda racista, lembrei, aquele comercial, bandos de mulheres brancas jovens e magérrimas, uma única mulher negra lá no canto. Enfim, já contei este enredo uma vez, não vale repetir. De repente não mais que de repente, uma senhora me cutucou pedindo desculpas por interferir na conversa alheia e emendou: “ah, mas isso aconteceu porque a propaganda foi feita para as mulheres de Porto Alegre, lá, a maioria é assim!”gabriela cravo & canela

Juro pela Deusa! Se não foram exatamente estas as palavras, foi exatamente esta a fala. No meio ainda de minha perplexidade, retruquei: “É, mas a propaganda passa no Brasil todo! Inclusive aqui na Bahia! Óa só!” Ela, a senhora, sem dizer um adeus foi embora murmurando um vago e tímido “é verdade…”. Eu, que queria mesmo era falar de morenos e morenas, resolvi batizar este tipo de atitude de amorenar, coisa fato quiçás troça fantasia ilusão que se repete incessantemente em inúmeras esquinas casas bares deste imenso país chamado Brasil.

Amorenar é disfarçar é desconversar é fazer de um tudo pra não encararmos a verdade simples e direta: vivemos num país racista e, ora veja, somos racistas. Por que vamos entrar neste assunto? Aqui todo mundo é igual! Porto Alegre é Brasil, Brasil é Porto Alegre. Inclusive, meu melhor amigo é negro! Aí certa pessoa enxerga outra pessoa, enxerga sua pele breu e chama “ô moreno” “ô morena” com medo de ofender se a revelasse negra. Amorenar é mergulhar a questão racial em tudo o que ela tem de cotidiano e político em um mar de imprecisão, de fuga e, porque não dizer, de certa covardia.

Camila Martins, na Caros Amigos de junho deste ano, começa assim sua matéria, falando em mulheres de coragem: “Ana é a responsável pela limpeza do centro social de uma igreja na grande São Paulo. Morena bonita, beirando os 35 anos…” Eu desafio. Quem realmente enxergou a cor da pele dessa mulher? Que cor enxergou? O lugar de onde ela fala por acaso deu mais ou menos melanina à sua identidade?

Chamo meu melhor amigo de moreno mesmo enxergando sua pele negra breu noite, eu amoreno. Alisas os cabelos crespos de tua menina com mil químicas sonhando com os fios rentes de Sandy, tu amorenas. Afirma que aquela figura nem precisa se preocupar com essa coisa de racismo, afinal, ela nem é tão negra assim ou negra o suficiente ou é negra clarinha, ele ou ela amorena, pode se preocupar muito. Somos inundados por milhares de imagens produzidas pela mídia de famílias homens mulheres crianças brancas como se fossem o mais fiel retrato do Brasil – tipo tudo é Porto Alegre – e as consumimos como absolutamente naturais, nós amorenamos. Pedis para não entrar em conversas conflituosas sobre racismo, cabelos, cotas, desigualdade, ai que chato, amorenais. Sonham eles ou elas, como sonha Ali Kamel, que toda esta história não passa de uma conspiração de pessoas neuróticas que não sabem aproveitar o melhor de nossa afamada cordialidade, nossa democracia racial, eles e elas amorenam.

Disfarço. Foges. Engana-se. Escondemos. Invisibilizais. Acovardam-se.

Keu Apoema