Eu amoreno, tu amorenas, ele ou ela amorena… quinta-feira, jul 30 2009 

RACISMO EXISTE
Prova número 08: Nosso prazer pelo amorenar.
Estava comprando chinelos. E explicava às minhas companheiras de prosa e passeio porque eu não compro sandálias Ipanema. Propaganda racista, lembrei, aquele comercial, bandos de mulheres brancas jovens e magérrimas, uma única mulher negra lá no canto. Enfim, já contei este enredo uma vez, não vale repetir. De repente não mais que de repente, uma senhora me cutucou pedindo desculpas por interferir na conversa alheia e emendou: “ah, mas isso aconteceu porque a propaganda foi feita para as mulheres de Porto Alegre, lá, a maioria é assim!”
Juro pela Deusa! Se não foram exatamente estas as palavras, foi exatamente esta a fala. No meio ainda de minha perplexidade, retruquei: “É, mas a propaganda passa no Brasil todo! Inclusive aqui na Bahia! Óa só!” Ela, a senhora, sem dizer um adeus foi embora murmurando um vago e tímido “é verdade…”. Eu, que queria mesmo era falar de morenos e morenas, resolvi batizar este tipo de atitude de amorenar, coisa fato quiçás troça fantasia ilusão que se repete incessantemente em inúmeras esquinas casas bares deste imenso país chamado Brasil.
Amorenar é disfarçar é desconversar é fazer de um tudo pra não encararmos a verdade simples e direta: vivemos num país racista e, ora veja, somos racistas. Por que vamos entrar neste assunto? Aqui todo mundo é igual! Porto Alegre é Brasil, Brasil é Porto Alegre. Inclusive, meu melhor amigo é negro! Aí certa pessoa enxerga outra pessoa, enxerga sua pele breu e chama “ô moreno” “ô morena” com medo de ofender se a revelasse negra. Amorenar é mergulhar a questão racial em tudo o que ela tem de cotidiano e político em um mar de imprecisão, de fuga e, porque não dizer, de certa covardia.
Camila Martins, na Caros Amigos de junho deste ano, começa assim sua matéria, falando em mulheres de coragem: “Ana é a responsável pela limpeza do centro social de uma igreja na grande São Paulo. Morena bonita, beirando os 35 anos…” Eu desafio. Quem realmente enxergou a cor da pele dessa mulher? Que cor enxergou? O lugar de onde ela fala por acaso deu mais ou menos melanina à sua identidade?
Chamo meu melhor amigo de moreno mesmo enxergando sua pele negra breu noite, eu amoreno. Alisas os cabelos crespos de tua menina com mil químicas sonhando com os fios rentes de Sandy, tu amorenas. Afirma que aquela figura nem precisa se preocupar com essa coisa de racismo, afinal, ela nem é tão negra assim ou negra o suficiente ou negra clarinha, ele ou ela amorena, pode se preocupar muito. Somos inundados por milhares de imagens produzidas pela mídia de famílias homens mulheres crianças brancas como se fossem o mais fiel retrato do Brasil – tipo tudo é Porto Alegre – e as consumimos como absolutamente naturais, nós amorenamos. Pedis para não entrar em conversas conflituosas sobre racismo, cabelos, cotas, desigualdade, ai que chato, amorenais. Sonham eles ou elas, como sonha Ali Kamel, que toda esta história não passa de uma conspiração de pessoas neuróticas que não sabem aproveitar o melhor de nossa afamada cordialidade, nossa democracia racial, eles e elas amorenam.
Disfarço. Foges. Engana-se. Escondemos. Invisibilizais. Acovardam-se.

RACISMO EXISTE
Prova número 08: Nosso prazer pelo amorenar.


Estava comprando chinelos. E explicava às minhas companheiras de prosa e passeio porque eu não compro sandálias Ipanema. Propaganda racista, lembrei, aquele comercial, bandos de mulheres brancas jovens e magérrimas, uma única mulher negra lá no canto. Enfim, já contei este enredo uma vez, não vale repetir. De repente não mais que de repente, uma senhora me cutucou pedindo desculpas por interferir na conversa alheia e emendou: “ah, mas isso aconteceu porque a propaganda foi feita para as mulheres de Porto Alegre, lá, a maioria é assim!”gabriela cravo & canela

Juro pela Deusa! Se não foram exatamente estas as palavras, foi exatamente esta a fala. No meio ainda de minha perplexidade, retruquei: “É, mas a propaganda passa no Brasil todo! Inclusive aqui na Bahia! Óa só!” Ela, a senhora, sem dizer um adeus foi embora murmurando um vago e tímido “é verdade…”. Eu, que queria mesmo era falar de morenos e morenas, resolvi batizar este tipo de atitude de amorenar, coisa fato quiçás troça fantasia ilusão que se repete incessantemente em inúmeras esquinas casas bares deste imenso país chamado Brasil.

Amorenar é disfarçar é desconversar é fazer de um tudo pra não encararmos a verdade simples e direta: vivemos num país racista e, ora veja, somos racistas. Por que vamos entrar neste assunto? Aqui todo mundo é igual! Porto Alegre é Brasil, Brasil é Porto Alegre. Inclusive, meu melhor amigo é negro! Aí certa pessoa enxerga outra pessoa, enxerga sua pele breu e chama “ô moreno” “ô morena” com medo de ofender se a revelasse negra. Amorenar é mergulhar a questão racial em tudo o que ela tem de cotidiano e político em um mar de imprecisão, de fuga e, porque não dizer, de certa covardia.

Camila Martins, na Caros Amigos de junho deste ano, começa assim sua matéria, falando em mulheres de coragem: “Ana é a responsável pela limpeza do centro social de uma igreja na grande São Paulo. Morena bonita, beirando os 35 anos…” Eu desafio. Quem realmente enxergou a cor da pele dessa mulher? Que cor enxergou? O lugar de onde ela fala por acaso deu mais ou menos melanina à sua identidade?

Chamo meu melhor amigo de moreno mesmo enxergando sua pele negra breu noite, eu amoreno. Alisas os cabelos crespos de tua menina com mil químicas sonhando com os fios rentes de Sandy, tu amorenas. Afirma que aquela figura nem precisa se preocupar com essa coisa de racismo, afinal, ela nem é tão negra assim ou negra o suficiente ou é negra clarinha, ele ou ela amorena, pode se preocupar muito. Somos inundados por milhares de imagens produzidas pela mídia de famílias homens mulheres crianças brancas como se fossem o mais fiel retrato do Brasil – tipo tudo é Porto Alegre – e as consumimos como absolutamente naturais, nós amorenamos. Pedis para não entrar em conversas conflituosas sobre racismo, cabelos, cotas, desigualdade, ai que chato, amorenais. Sonham eles ou elas, como sonha Ali Kamel, que toda esta história não passa de uma conspiração de pessoas neuróticas que não sabem aproveitar o melhor de nossa afamada cordialidade, nossa democracia racial, eles e elas amorenam.

Disfarço. Foges. Engana-se. Escondemos. Invisibilizais. Acovardam-se.

Keu Apoema

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Negras Branquinhas quarta-feira, jun 10 2009 

RACISMO EXISTE
Prova número 03 – Percentual de Melanina

O casal de amigos, ambos com trajetória militante reconhecida, conversavam na mesa do bar. A empolgação do papo me obrigou, da mesa lateral, a dedicar um pouco de atenção àquela cena.
– Olha você! Um negão lindo, bem sucedido, com consciência da sua identidade racial, mas na hora de “honrar” a sua raça, a sua cor, deixa tanto a desejar. Porque não se envolve com mulheres verdadeiramente negras?
Aí comecei a me remexer na cadeira, talvez na busca por uma resposta sobre o que significaria o – “v e r d a d e i r a m e n t e”. Enquanto isso, ela continuava:
– Você só se envolve com mulheres mais claras. Umas a gente até pode chamar de “negras”, porém temos dereconhecer que são meio fracas, né! Com pouca melanina. E pior, que muitas vezes nem sequer tem a identidade definida. Ao contrário de nós negronas, rastas, trançadas, Black Power com roupas afro e que vão ao terreiro de Candomblé!mulheres
Gente, mas aquele tom de quem grita por igualdade não deveria estar preocupado com outra luta? E onde estaria o discurso de que identidade racial é muito mais que cor de pele. É construção ideológica, é identificação sócio-cultural e tantas outras coisas?
– Lembre da Adriana, Continuava ela. – Pele até escura, mas cabelos lisos, longos, olhos puxados, lábios carnudos. Poderia perfeitamente ser confundida com uma pessoa de origem indígena. Havia quem dissesse que parecia uma chilena. Achavam linda a sua cor – de jambo, de jabuticaba, de cravo e canela… – Agora, para completar, você me arruma essa Sophia. Uma típica “negra branquinha”, com nome europeu e que nem se esforçar para “enegrecer” mais um pouco mais consegue! Aquele cabelo dela não engana a ninguém. É até volumoso, mas nem liso, nem crespo. Não dá pra trançar e está longe de um Black Power. Ela dificilmente vai ser discriminada. Afinal, todos acham que ela é “moreninha”! Ficava eu cabreira, pensando no meu cabelo volumoso, de um crespo leve, na minha – suposta pouca melanina, comparada com o tanto que me sinto negra. Será que, quando o assunto fosse identidade racial, só me restaria a foice no sangue, visível apenas no teste comprova o traço falciforme?

Na cabeça daquela figura a solução pra esse tipo de “conflito” nem de longe passaria por diálogos, ou provocações pedagógicas a quem quer que fosse, mas levar tais mulheres para uma praia, de preferência providas de um excelente bronzeador, e fazer-lhes tranças naturais ou um belo “permanente” afro. Olha aí uma possibilidade de “enegrecê-las”!
Eu ficava pensando de onde viria tanto “empoderamento”, ao ponto de julgar as escolhas mais subjetivas e íntimas do outro.
Enfim, calou-se. Não por encerrar o assunto, mas para um gole de cerveja. Era molhar a garganta e continuar seu discurso…
Foi aí que o musico que tocava violão ao fundo do bar, terminou o sambinha que contradizia aquela discussão efervescente, com um último verso: “meu samba vai, diz a ela, que coração não tem cor”.

Luciana Pinto