Pressupostos e Guetos: Temeridades quinta-feira, set 3 2009 

RACISMO EXISTE
Prova 13: Literatura não Recomendada – Magnoli, Schelp e Veja

Uma mentira bem contada é aquela que se faz rodear de aparentes verdades, elas dão sustento para as mais escabrosas ilusões, sempre muito arriscosas, como os homens que espancam suas mulheres dizendo amá-las, professoras dedicadas que pedem exames neurológicos a crianças que simplesmente aprendem em tempos diferentes ou pessoas auto-conclamadas anti-racistas, mas que consideram todo esforço em busca de equidade racial qualquer coisa de ridícula, quando não temerária.

Pois bem, quem lê o artigo de Diogo Schelp sobre o livro Uma Gota de Sangue, de Demétrio Magnoli, na Veja de 2 de Setembro, caso tenha olhos apenas um pouco mais abertos, quizás entenda a minha agonia deste agora. As intenções são aparentemente as melhores, evitar o pior, o acirramento dos conflitos numa sociedade que se pretende mais justa e igualitária. 400 páginas do livro dizem contam direitinho, o surgir de um racismo científico que pautou diversas políticas de segregação racial pelo mundo afora, fala de Nelson Mandela, lembra que a ciência já declarou não existir raças do ponto de vista humano, blá, blá, blá. Coisas das quais, até onde sei, ninguém discorda. Mas pára por aí.medo2

Schelp, apresentando Magnoli, diz que “as atuais políticas de cotas derivam dos mesmos pressupostos clássicos sobre raça que embasaram, num passado não tão distante, a segregação oficial de negros e outros grupos”. Deuses, de que pressupostos estes homens estão falando? Qualquer visita elementar aos bancos da história nos falará de crenças devidamente sedimentas pelas ciências, religião e políticas públicas de antão que justificaram não apenas a escravidão de milhares de negros, mas também a criação de um imaginário de inferioridade para tudo que pudesse dizer respeito às populações africanas e seus descendentes. Os projetos de cotas não pretendem inferiorizar ninguém, pelo contrário! Os pressupostos, definitivamente, não são os mesmos!

Dia desses, uma amiga de colégio conversava comigo e, em meio a nossas tabulações, declarou que cotas são ridículas porque, “se observarmos bem, quando o negro quer, o negro consegue. Quantos negros você não conhece que alcançaram sucesso?” Heróis ou filhos de heróis inauditos como Marina Silva, que após se declarar a favor das cotas, se vê provocada pela Veja, mesmo exemplar, lembrando-a que ela, mesmo sendo negra, pobre e alfabetizada pelo Mobral, conseguiu entrar em uma universidade. “Sou uma exceção, ela afirma, tenho sete irmãos que não chegaram lá”. São muitos os que não chegam lá. E não por falta de merecimento. As pesquisas que acompanham os alunos cotistas têm demonstrado que, a despeito de sua suposta falta de preparo, eles e elas têm alcançado resultados acadêmicos iguais ou superiores ao dos alunos não cotistas, o que coloca em cheque, inclusive, o atual sistema educacional da classe média brasileira, militar, que prepara seus alunos para os ditos vestibulares e não necessariamente para o viver acadêmico. É a tal professora que pediu exame neurológico de uma linda menina de cinco anos de idade porque ela ainda não aprendeu a ler enquanto pinta e cria e descobre outras respostas que não são vistas nem percebidas por um senso comum que se pretende verdade.

Ah, afinal, de fato, eu gostaria de lembrar àqueles que têm a Veja como revista de cabeceira e de consultório – são muitos, eu sei – um pouco de cuidado, o bom e velho senso crítico, um ponto de interrogação para as coisas que são ditas de forma tão assertivas como se verdades fossem. Schelp falando de Magnoli ainda diz que se cairmos na suposta falácia das cotas, “pouco a pouco, os próprios cidadãos passam a acreditar [na] divisão e se vêem obrigados a defender interesses de gueto”. Ora, o que exatamente eles estão fazendo?

Keu Apoema

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E os Cabelos Rendem – Ou Mercado Domador quarta-feira, ago 19 2009 

RACISMO EXISTE
Prova 11: Identidade disciplinada em embalagens peroladas

Não raro as formas como a mídia e o mercado tratam a questão racial vem sendo pautadas nos nossos textos. A opção pelo “invisível” cotidiano, como já devemos ter dito antes, vem do interesse em desvelar o subjetivo, desdobrar o subtexto, vem da curiosidade do que está por trás das maquiagens bem feitas e das linguagens pouco precisas.

Pensando nisso, lembrei que um belo dia, não registro bem quando, andando pelos corredores de um supermercado, percebi mais embalagens coloridas, novos produtos, novas formas, novas intenções.

Eram os efeitos de uma valorosa descoberta: a população negra desse país, se não está ascendendo financeiramente, ao menos está valorizando um consumo digamos assim – personalizado.

Então, alguém teria que tirar proveito disso! Eram xampus, sabonetes, desodorantes, cremes mil para cabelos, para a pele, enfim. Tudo meticulosamente direcionado para nós de tez escura.

Eu não sei se isso significa uma conquista, do ponto de vista do reconhecimento de que pode haver particularidades nessas características, que demandam produtos próprios. Mas não me furto ao pensamento provocativo de que nunca vi hidratante para a pele branca, xampu para cabelos ruivos ou encrespador de lisos.

Bem, é tanta informação, que já não tenho nenhuma certeza se essas mal traçadas linhas são frutos de um radar de patrulhamento alterado, ou se de fato a indústria cosmética ainda não aprendeu sequer a dar um trato adequado às terminologias que utiliza em parte dos seus produtos.

E é aí que quero chegar. Voltando ao supermercado. Entre a sedução das embalagens, as fórmulas e a aplicação para os diversos tipos de cabelo me deparei com uma sequência de expressões digamos assim “exóticas” em embalagens peroladas e com rótulos estranhsedaos: disciplinador de cabelos; anti-frizz, domador de cachos.

Na minha infância, ao menos se chamava direto: cabelo pixaim, cabelo de mola, cabelo de Bombril. Isso talvez não fosse bonito, mas pelo menos era escrachado. Não havia dúvidas sedutoras e consumistas que mascarassem tanto assim o preconceito em nome do lucro.

O apelo do consumo está posto. Parece que pouco importa do que muita gente ainda abre mão para ter esses tais cachos domados, disfarçando uma necessidade de aceitação que nem sempre vem de forma natural e que precisa, sim, da artificialidade dos crespos disciplinados para ser acolhida.

Sem panos quentes, pra mim, o fabricante do domador de cachos é o mesmo que faz o nerd branco e franzino massacrar o negro boxeador no comercial da Mastercard.

Mas de uma coisa estou certa, esses textos aqui, às vezes exacerbados nas tintas da indignação, às vezes preocupados com sutilezas cotidianas, tentam, tão somente, contribuir com a chegada de um dia em que os leões não precisem ser domados na sua natureza mais veemente, tendo sua juba alisada pela lógica opressora posta.

Luciana Pinto.

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