RACISMO EXISTE
Prova número 07: Mastercard e os Homens Negros Nocauteados

A Mastercard vende sonhos e mil e uma possibilidades de consumo, astuciosamente lembrando que os primeiros estão num plano superior da existência, não tem preço. Já as outras, as tais, estas sim, têm preço, vários numerozinhos que se multiplicam em dezenas, centenas e milhares.

De um modo cínico, entretanto, sugere que as tais, as outras, colorem os primeiros, viabilizam-nos, tornam-nos ainda mais especiais. E, no desfecho, grand finale, se apresenta como a mágica varinha de condão que entre a pessoa e o sonho cria pontes através da possibilidade desejada e quase irresistível de comprar tornada necessidade. Claro, não fala em faturas, juros, prazos, banalidades das economias cotidianas e domésticas.

Para tanto, conta histórias: pais em férias com seus filhos, aventureiros pelas estradas da Chapada Diamantina, meninos que passam no vestibular.

Eis um dos enredos, um dos últimos que dia desses vi na televisão: um ringue, multidão em expectativa, um homem negro, alto, forte, cabelo moicano golpeia direita esquerda alguém até ser nocauteado por outra direita, quase invisível. Uma voz no fundo anuncia um computador e seu preço, livros e apostilas e seus preços. No entremeio surge o aparente herói: um menino branquelo, magro, óculos de aro grosso, portando bermuda folgada e desajeitada, um quase nerd. No entorno, todos vibram.

Aparentemente, nada demais no reino das coisas que não tem preço e de todas as outras que, definitivamente, têm. Mas, no fundo das aparências sempre há algo a mais. “O essencial é invisível aos olhos”, como diria Saint-Exupery em sua capacidade incroyable de ser banal e verdadeiro ao mesmo tempo. Tal e qual a luta de boxe entre duas personagens já gastas e empobrecidas: o nerd e o corpo negro que serve à força, sempre pronto para ser nocaumastercardteado por uma suposta inteligência branca,

Por trás das entrelinhas, existe nenhuma poesia e o sonho desnuda-se mesquinho. Por trás da história contada, notícias sobre o quanto o acesso ao nível superior de educação tem sido, até bem pouco tempo, um privilégio, sobretudo daqueles que, a despeito de seus méritos, têm acesso às coisas cujo preço costuma ser alto, muito alto. Sugere o medo quase aterrador que a classe média sente das portas universitárias se abrirem para negros e pobres, ocupando seus supostos lugares.

Discutia com uma amiga a questão das cotas e ela abriu a minha boca em espanto com duas pérolas: “quem mais está se beneficiando com as cotas são os donos de cursinhos” (pura lei de mercado, a oferta de vagas reduz, a concorrência aumenta e os cursinhos, pontes incolores entre os jovens da classe média e a universidade, aproveitam-se disso). Ah, a outra pérola:” você teria coragem de ir a um médico cotista?”

Enfim reforça certo lugar de derrota e fracasso que grassa que nos entrecruza a todo instante.

Em tempos em que um homem negro consegue ser eleito presidente da maior potência econômica do mundo, inspirando meninos e meninas por todos os cantos com relação à possibilidade real de concretização de seus sonhos, a mídia e a televisão seguem seu deserviço pertinaz em direção oposta com mulheres negras sempre empregadas domésticas e homens negros nocauteados, entre outras personagens e histórias do mesmo quilate.

Keu Apoema