A Gente se Sabe de Cor quinta-feira, ago 27 2009 

RACISMO EXISTE
Prova 12: Lentes novas pra enxergar as cores do mundo

Ele, branco, alemão, meia idade, chegou ao Brasil para trabalhar por tempo indeterminado. Ela, na casa dos vinte e pouco, negra, solteira, linda! Encontravam-se sempre em reuniões, diversas e, não raro, precisavam debater os temas políticos da labuta comum. Era só. Na verdade, seria só, não fora o fato de haver certo deslumbramento do cidadão pela beleza da moça. Beleza, entretanto, negada, substituída por um sinônimo mais “elaborado”:

– “É uma moça exótica.”

Na roda os panos quentes da submissão terceiromundista aos padrões europeus. Mas não dava. Ao final, ela sabia muito bem os limites racistas que estavam postos no tal “exotismo”.

Uma opção “b” para que a característica do que é exótico não precise ser usadas para ofuscar a beleza de ninguém é algo mais freqüente e já tratado aqui – a morenização. Esta prática  fica evidente em outra história:  era uma conhecida que se esforçava para ensinar a sua filha que ela é negra sim, e que não há nada de errado nisso, e que ela, desde criança, não deve então se deixar discriminar ou se abater por práticas racistas.

Até que um dia “xingada” de negra na escola, a direção insiste em tratar o problema da forma mais “pedagógica” possível.

– “Vamos repreender o garotinho que ‘ofendeu’ a menina”. 

– “Nunca mais a chame  de negra, ouviu? ela é M O R E N A, Você a está ofendendo e isso é muito feio.”

Nem preciso dizer que a mãe cuidou de dialogar com a diretora para que no futuro sua filha não passasse a ser vista como uma pessoa “exótica”.lentes_13a

Mas assim como as lentes, às vezes distorcem, em outros casos evidenciam – isso é visível na história de Aninha e Carla. Amigas de infância, ela se reencontraram  15 anos depois, adultas , cheias de histórias, conquistas , e com estilos de vida completamente antagônicos.  Contradições responsáveis por hiatos no diálogo vazio que se estabeleceu naquela noite, até que uma delas olhou para a outra e perguntou:

“- Você escureceu, não foi?”

A amiga poderia bem ter respondido “– é que fui à praia esse fim de semana.”

E aí mantinham tacitamente o acordo do clareamento artificial. Não era possível. Só lhe restava devolver o comentário:

 “- fico feliz que que você agora está enxergando tudo direitinho.

E assim, pra cada jeito míope de olhar, uma lente específica que ora corrige, ora ameniza, ora distorce e provoca em relação às formas não tão subliminares de implantar o vírus racista na sociedade. Em meio a isso tudo, talvez o que valha então, seja a gente se saber de cor.

Luciana Pinto

Q’estão de Cor quinta-feira, ago 6 2009 

RACISMO EXISTE
Prova número 09 – Meninas Cor de Ameixa

Desde criança, a pequena Betina se via negra. E não havia nada demais nisso. Porém, todos em casa lhe tinham na conta de moreninha clara, o que ela, definitivamente, não entendia.
Afinal, olhava para o pai: negro, olhava para os tios: negros. Mas a família insistia em tratá-la por “apelidos carinhosos”: cor de jambo, cor de jaboticaba, cor de ameixa, cor de canela!
– “Ops! Mas cor de ameixa não é preto, mãe?”
– É uma cor mais bonita, filha, um tom avermelhado. Não fique falando estas “coisas de preto” por aí!

Seus presentes eram sempre bonecas loiras, ruivas, com cabelos lisos. Ah! Que confusão! Um dia pediu:
– Pai, me dá uma boneca negra ! Bem, o tom de pele mais escura não foi encontrado na época. Mas os cabelos castanhos estavam lá.

Porém, só isso não bastou. Assim os cabelos da boneca foram lavados e isso fez com que os fios parecessem crespos. E as coisas já melhoraram um pouco.

“- Quem é este da foto?”

bonecas

Perguntou-lhe uma tia idosa, referindo-se a um rapaz negro de sorriso largo.
” – É meu amigo da escola, tia!”
” – Hum, ele é simpático, exótico, tem dentes bonitos! São naturais?
Bem, fosse lá porque sua tia lhe perguntara aquilo, Betina, que na época já se acercava dos 12 anos, deteve-se em explicar que na formação do povo brasileiro vinha dos europeus o hábito de asseios mais escassos e daí também poder ser deles a característica de dentes estragados e a necessidade de próteses ou coisas do tipo.

Quando tinha de ir a uma formatura ou a um casamento era de muito sofrimento. Afinal, tinha de esticar o cabelo e passar corretivo para afilar o nariz.

Porém, à medida que crescia, Betina conhecia pessoas que também sofriam por não serem percebidas com naturalidade. Em compensação, descobriu outros estilos de se produzir.
As pessoas ainda mencionam suas “roupas de negra”, seu cabelo volumoso e crespo, ainda falam de seus amigos com dreds e black power.

Paciência! Com o tempo, Betina aprendeu a arte de devolver com perguntas os comentários alheios. Foi assim que descobriu que às vezes, uma frase tinha mais efeito do que muitas manifestações agressivas.
Hoje ela sabe que vai ter de usar isso sempre, por si, por seus amigos, pelas pessoas que não conseguem ainda provocar a reflexão e por aquelas que nem sequer refletiram.
Mas sabe que mesmo sendo uma formiguinha, tem seu próprio jeito de fazer o mundo melhorar. E Só por isso, já segue feliz com sua alma combinando com seu corpo.
E você, o que acha disso?

Luciana Pinto