E os Cabelos Rendem – Ou Mercado Domador quarta-feira, ago 19 2009 

RACISMO EXISTE
Prova 11: Identidade disciplinada em embalagens peroladas

Não raro as formas como a mídia e o mercado tratam a questão racial vem sendo pautadas nos nossos textos. A opção pelo “invisível” cotidiano, como já devemos ter dito antes, vem do interesse em desvelar o subjetivo, desdobrar o subtexto, vem da curiosidade do que está por trás das maquiagens bem feitas e das linguagens pouco precisas.

Pensando nisso, lembrei que um belo dia, não registro bem quando, andando pelos corredores de um supermercado, percebi mais embalagens coloridas, novos produtos, novas formas, novas intenções.

Eram os efeitos de uma valorosa descoberta: a população negra desse país, se não está ascendendo financeiramente, ao menos está valorizando um consumo digamos assim – personalizado.

Então, alguém teria que tirar proveito disso! Eram xampus, sabonetes, desodorantes, cremes mil para cabelos, para a pele, enfim. Tudo meticulosamente direcionado para nós de tez escura.

Eu não sei se isso significa uma conquista, do ponto de vista do reconhecimento de que pode haver particularidades nessas características, que demandam produtos próprios. Mas não me furto ao pensamento provocativo de que nunca vi hidratante para a pele branca, xampu para cabelos ruivos ou encrespador de lisos.

Bem, é tanta informação, que já não tenho nenhuma certeza se essas mal traçadas linhas são frutos de um radar de patrulhamento alterado, ou se de fato a indústria cosmética ainda não aprendeu sequer a dar um trato adequado às terminologias que utiliza em parte dos seus produtos.

E é aí que quero chegar. Voltando ao supermercado. Entre a sedução das embalagens, as fórmulas e a aplicação para os diversos tipos de cabelo me deparei com uma sequência de expressões digamos assim “exóticas” em embalagens peroladas e com rótulos estranhsedaos: disciplinador de cabelos; anti-frizz, domador de cachos.

Na minha infância, ao menos se chamava direto: cabelo pixaim, cabelo de mola, cabelo de Bombril. Isso talvez não fosse bonito, mas pelo menos era escrachado. Não havia dúvidas sedutoras e consumistas que mascarassem tanto assim o preconceito em nome do lucro.

O apelo do consumo está posto. Parece que pouco importa do que muita gente ainda abre mão para ter esses tais cachos domados, disfarçando uma necessidade de aceitação que nem sempre vem de forma natural e que precisa, sim, da artificialidade dos crespos disciplinados para ser acolhida.

Sem panos quentes, pra mim, o fabricante do domador de cachos é o mesmo que faz o nerd branco e franzino massacrar o negro boxeador no comercial da Mastercard.

Mas de uma coisa estou certa, esses textos aqui, às vezes exacerbados nas tintas da indignação, às vezes preocupados com sutilezas cotidianas, tentam, tão somente, contribuir com a chegada de um dia em que os leões não precisem ser domados na sua natureza mais veemente, tendo sua juba alisada pela lógica opressora posta.

Luciana Pinto.

Cabelos de Menina quarta-feira, ago 12 2009 

RACISMO EXISTE:
Prova 10: Cabelos bons e ruins.

Ela tinha cinco anos. Nos dias de festa, a mãe fazia cachinhos em seus cabelos. Nos dias comuns da semana, dia de aula, era uma trança rabo de cavalo. Enorme. Seus cabelos eram penteados e escovados ainda molhados, puxados para trás e arrumados para que nenhum fio escapasse. Mas eles escapavam. Sempre, entre o sinal de entrada na escola e o da saída. Seus cabelos eram crespos e finos e os fios da frente escapuliam à medida que secavam, espetando para o alto um assanhamento que assim seria para a vida toda.

Um dia, uma professora olhou para a menina e disse que ela parecia um sol. A verdade a verdade é que desconfiou perguntando-se se não estava a professora zombando dela, mas acolheu o elogio, gostou de se imaginar ensolarando com seus muitos fios de cabelos teimosamente assanhando apesar do elástico tentando prendê-los firme no alto da cabeça. Depois, ela adolesceria e ouviria outras referências menos poéticas por conta do volume de seus cachos, sempre altos, muito altos. Sem paciência para escovas – na época não havia uma variedade tão grande das tais nem tão pouco assim definitivas – por anos apelou para os mais diversos tipos de relaxamentos: para reduzir o volume, para eliminar os assanhamentos, para que o cabelo ficasse talvez um pouco “bom”.

Bom. Segundo o Wikcionário, “adjetivo que corresponde ao que é exigido, desejado ou esperado quanto à sua natureza”.  Cotidianamente, assim acontece, exige-se que os cabelos, especialmente o das mulheres, sejam lisos e pouco volumosos. Deseja-se que os cabelos dos homens, especialmente dos homens negros, sejam curtos. Espera-se que homens e mulheres negros e negras façam o possível e o impossível para esconderem suas cabeleiras vastas, seus rastas, seus blacks, dreads, tranças, trançados, lindezas permitidas apenas pelos cabelos crespos. Espera-se cabelos domesticados como se espera domesticadas as almas dos negros das mulheres negras das crianças negras.itatila (1)

E o fazem de modo assim cruel. Nos entremeios das coisas cotidianas, porque são elas, quer queiramos ou não, que nos preenchem, nossos corpos e nossos imaginários.

Uma vez. Casal jovem. Ele, negro. Ela, branca.  Ainda não tiveram filhos. Pensam em tê-los. Ele expressa seu ideal de beleza: “queria ter uma menina, pele como a minha e cabelos bons como o da mãe”. Outra vez. Os grossos cachos do sobrinho são discutidos. “Não está na hora de cortar?” A senhora explicou: “não pode cortá-los agora com essa idade, senão o cabelo vai ficar ruim”. Bom. Ruim. O ruim tem peso.  É inadequado, feio, inaceitável. Cotidianamente as pessoas comem-no, digerem-no e cospem-no: são milhares de crianças e mulheres esforçando-se para se tornarem barbies. São milhares de olhos mirando desconfiados os cabelos negros.

Noutro dia, estava numa doceria em Salvador. E entrou uma outra menina, de uns três anos, acompanhada de sua mãe, usando a farda amarela da escola. Seus cabelos ensolaradando em cada um de seus fios, cheios, volumosos, cacheados, soltos, livres. A verdade a verdade é que suspeitei .  Aquela mãe certamente precisava conversar sobre o quanto seus cabelos nada parecidos com os da maioria de seus coleguinhas eram lindos. Nem ruim nem bom. Apenas lindos. Abençoadas sejam as mães e as professoras sábias.

Keu Apoema