RACISMO EXISTE
Prova 16: Os diversos tons das falas, escutas e escritas.

Há muito tempo alguém me apresentou esta expressão: filosofia de almanaque. Todas estes textos fáceis, de alguma superficialidade, clichês, coisas que devemos saber para lidarmos com as intempéries dos caminhos e um sem número de outras facetas da vida. Hoje em dia, me parece, ela encontrou o lócus perfeito no meio virtual, transita sem pudores por e-mails, são armazenadas em blogs até no facebook. Sempre as leio, às vezes com alguma impaciência, às vezes com um menear positivo da cabeça, vezes outras com algum horror. Leio-as, escuto-as, levo comigo as que me interessam, afinal, não ignoro o cotidiano e o vulgar da vida. Entre tais pensamentos, um dos que mais me marcou me foi enviado por Thelma, eu estava saindo da faculdade e ela me introduziu nos melindres da comunicação: a diferença entre o que você fala e o que outro ouve, duas coisas em si distintas; e, por fim, uma terceira e uma quarta dimensão, a diferença entre o que você quer dizer e o que o outro acha que você quer dizer. Isto é especialmente verdade com relação à escrita, quando o tom do autor pode e normalmente é alterado por aquele que lê.

Entre aquele que escreve e aquele que lê, vozes doces e ansiosas, indignadas e agressivas, podem se misturar inteiramente, confundir-se, dependendo principalmente das emoções que cada qual guarda si, enraizadas nas próprias histórias e percepções de vida. Quando tocamos a questão racial, aí sim, percebemos, de modo contundente, os destemperos da comunicação. Existe uma tendência para achar que toda fala que pauta o racismo é agressiva. E, nós, país cordial que somos, entramos logo no “deixa disso”, por que vamos seguir por estas veredas tortuosas? Um amigo, depois de nossa última crônica, nos enviou uma mensagem muito suave, doce até, desejando que nossos escritos contribuam para o despertar da consciência e nos lembrando que as mudanças já estão em curso, ainda que lentamente. A única coisa que mexeu com meu coração, não vou mentir, Felipe, foi quando você disse: “que seu grito não precise ferir sua garganta e que sua luta não implique em vencedores e vencidos”. O grito está em quem escreve ou em quem lê? Em diferentes tons e degradês, é possível que perpasse os dois, mas é além que eu quero ir.

O processo de colonização e escravidão no Brasil foi brutal. Foram feridos corpos, espíritos, culturas. E isso não há muito tempo. Historicamente ainda reverberam por todos os nossos tecidos sociais as marcas, elas estão aí, presentes, por todos os cantos. Corpos, espíritos, culturas, vozes várias interminavelmente silenciadas. O curioso, a graça, é que, quando tais vozes persistem em falar – olha que a nossa é bem pequena é grão de areia – sejam percebidas em sua dor e em sua indignação ou mesmo só ponderações como agressivas, gritos que podem ferir. O mais curioso ainda é que essas vozes assustem. Por que assustam? O que realmente está em jogo? A noção de vencedores ou vencidos está em quem lê ou em quem escreve? Em diferentes tons e degradês, é possível que perpasse a ambos, mas é além que devemos ir.

Um outro leitor responde ao nosso texto laconicamente: “ok. E daí?” É isso, realidade constatada. E daí? O que vamos fazer com ela? Será que ela importa? Para quem ela importa? Às vezes gritamos, Felipe, mas nem sempre. Vezes outras apenas ponderamos, refletimos, colocamos. E a nossa fala – entre suas diversas possibilidades de tons na complexidade de nuanças entre quem lê e quem escreve – não nos fere, não fere nossas gargantas. Ao contrário, restaura inúmeros tecidos que precisam de cura e tratamento. Não desejamos vencedores nem vencidos, apenas eqüidade. É isso apenas tudo isso.

Keu Apoema