Pressupostos quarta-feira, fev 24 2010 

RACISMO EXISTE:
Prova 21: o que os nossos olhos vêem.

A vida está cheia de pequenos atos. Eu até que já confessei isso antes, gosto de um pouco de filosofia de almanaque, comum, banal, proverbial, do tipo que nos dizem…após as tempestades, vem a bonança, enfim. Voltando ao começo, o cotidiano está repleto dessa miríade de acontecimentos que se repetem, reatualizam-se, contam-nos histórias sem fim, confirmam realidades para as quais precisamos olhar, desvelar, revelar.

As mesas de bares e restaurantes são, para mim, um lugar privilegiado de observação dessa vida cotidiana que acontece em pequenos pedaços, em detalhes, palavras e jogos nem sempre sutis, raro inocentes, uma experiência quase sempre antropológica. Outro lugar interessante são os bancos, suas filas e seus gerentes ansiosos por metas, eu que só tardiamente descobri que bancos fazem dinheiro vendendo dinheiro, boba inocência.

Um dia. Um restaurante. Na mesa pessoas todas simpáticas e lindas. Papos sobre cultura, arte, mudanças sociais, planos de mundos melhores. Fala-se sobre questões várias. Artesanato aqui, racismo acolá, anti-depressivos, homeopatia, doenças contemporâneas, questões outras seculares, o casamento de amigas lésbicas. Neste ponto, a única pessoa negra da mesa conta o quanto foi difícil para uma mãe, parenta sua, aceitar o filho gay. Outra integrante do grupo, recém apresentada à primeira, comenta solidarizando-se: “imagino o que tenha enfrentado… gay, ainda por cima negro e pobre”.

Outro dia. Um banco. Uma mulher jovem negra entra para abrir uma conta. O gerente a olha e o seguinte diálogo se desenrola:

– Já não disse que não atendo à empresa X?

– O que é isso? A mulher pergunta.

– Uma empresa terceirizada de limpeza.

Deveríamos todos nos perguntar, ao menos de vez em quando, o que os nossos olhos vêem quando enxergam uma pessoa negra. Sem grandes censuras, deveríamos escutar a resposta automática sobre quem este outro é. Quais são os adjetivos que antecipadamente nos acodem, a que lugares julgamos o outro pertencer, qual é supostamente seu nível social e econômico. Não raras vezes nos surpreenderíamos com a distância entre o percebido e a realidade.

A única mulher negra daquela mesa de restaurante pertence a essa coisa banal chamada classe média, com considerável poder de consumo, cartões de crédito e seus derivativos. Seu parente gay tal e qual. Por sinal, nem é negro, ainda que seus traços não escondam seu pertencimento a uma família multiracial. A mulher jovem diante do gerente, também classe média, só queria abrir uma conta.

O que nos faz pensar que uma mulher negra fatalmente é pobre ou, sequer, dispõe de algum poder de consumo, essa unidade básica de existência do capitalismo, isto é racismo. Saberíamos se ouvíssemos com franqueza às pressuposições cotidianas de nossos olhos.

Texto e imagem: Keu Apoema

Beyoncé, a Ala Vip e o Racismo Institucional sexta-feira, fev 19 2010 

Provocado pela mídia me desloquei com um amigo para o show de Beyoncé no Parque de Exposições. Havíamos comprado ingressos para a pista Vip, área restrita a quem pagasse R$ 370. Enquanto assistíamos ao show de Ivete Sangalo veio um exemplo de racismo institucional. Uma guarnição da Polícia Militar abruptamente abordou o meu amigo, circundando- o e já levando-o de modo truculento, sem nada perguntar.

Ao me aproximar para saber o que estava acontecendo, os soldados me afastaram. A  resposta do corpo policial traduziu força e ameaça, mesmo que implícita, sem nenhum texto, a não ser o gestual, e demonstrou que não há verbo capaz de estabelecer um diálogo entre sujeitos que detém e os que devem ser alijados de alguma relação com aqueles que personificam o poder.

O meu amigo estupefato não reagiu. Foi levado para um canto da pista VIP,
próximo aos holofotes e humilhado pela revista policial, como se estivesse
cometido um delito. Por fim, após a crueldade de todo o rito da PM, ouviu a seguinte frase:  “houve um roubo aqui na área VIP e soube que a pessoa era do seu estilo”.

Qual estilo, cara pàlida? Respondo: o da cor/raça. Meu amigo é negro retinto.

A área VIP era formada majoritariamente por indivíduos de classe média e branca. Se comparada com a área de pista mais barata, ali havia uma proteção policial considerável, mesmo sendo uma área reservada e sem grande fluxo de pessoas. A lógica da distribuição policial em espaços de eventos elitizados parece obedecer a critérios. Quais? Procuremos os sentidos implícitos, jà manifestos na distribuição desigual da PM na cidade do Salvador.

Diante desse fato de racismo explícito, o que dizer dos olhares das pessoas
diante de tal brutalidade? Ao ver um negro sendo levado por policiais, mesmo ele estando na área VIP, algo que indica um diferencial em termos de classe, um sentimento de proteção emana das cabeças ali situadas.

A naturalização do racismo “uma pessoa negra sempre é suspeita”, associa-se aos que imaginam estarem sempre sendo protegidos pela corporação militar. Exemplos como esse abundam no País. O diferencial é que foi na ala VIP de um show. Lembro-me que no debate sobre as cotas raciais nas universidades os que eram contrários insistiam em dizer que no Brasil era difícil definir quem é negro. A resposta dos ativistas atualizou-se na área VIP para ver Beyoncé: pergunte à polícia. Ela saberá.

Jocélio Teles (*)

Jocélio Teles é doutor em antropologia e coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Ufba ( Pós Afro).

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