dANIelA MaRTInS

Uma mulher enredada nos fios do mundo, cheia de cachos, idéias e muitas histórias, pra guardar e pra contar.
Um par de olhos e outro de ouvidos, um corpo e várias almas, uma esponja e uma estrela do mar. Esponja que absorve, estrela que regenera o corpo e renova alguns pedaços que se vão.
Nas minha águas, muitas algas, filtros vivos do que vem e do que vai.
Aprendi cedo a nutrir meus plânctons, saí da concha a mim reservada, saltei oceanos em cavalos marinhos, mas nada seria sem as minhas alianças…
Pois a uma mulher não se reserva apenas uma aliança, aquela que a escraviza nas correntes do patriarcado.
Uma das minhas maiores dan1descobertas foi compreender que a minha negritude não estava na cor da minha pele nem mesmo nos meus cabelos pouco moles ou nas coisas que gostava de dançar ou comer. Descobri a minha negritude bem ali onde se escondia perversamente o meu racismo, aquele que não queria ser visto, se ocultava… Mas hoje, para que ele se torne cada vez menos potente em mim, a minha missão é torná-lo público e visível. Somos racializadas, sempre fomos, não importa o quanto foi mais fácil ou difícil esconder. Aprendemos o racismo muito pequenas e se existe alguma autonomia na Formação, na Educação, no Aprendizado, algum dia, na vida de qualquer uma (ou um) ela deve servir para estranharmos os nossos modos, as nossas formas de aprender as coisas, especialmente quando geramos descendentes…
Uma mulher são muitas mulheres. Uma história são muitas histórias.

kEu aPOeMa

Sou sertaneja, da região do São Francisco, interior de Pernambuco. Nasci em Belém de São Francisco, cresci entre Petrolina e Ipupiara na Bahia e muito cedo, pra fazer faculdade e trabalhar,ganhei o mundo. Às vezes definem-me
como pernambaianeira, em mim a síntese dos três estados que têm sido minhas casas. Sou negra e filha de uma família inter-racial, grande, com muitos  tios, primas, histórias, vivências religiosas e uma paixão sempre declarada
pelo saber, pela educação, todas dimensões da vida que me mergulharam desde  sempre em um universo de identidades.
Muito cedo soube o que significa ser negra em espaços ocupados por uma maioria branca: negada ou invisibilizada no que diz respeito à cor de pele  traços à minha ancestralidade. Certa vez, ouvi de uma amiga muito querida
que eu não precisava me preocupar com isso, afinal era “morena” e não negra.
Lencois 1st eve (2) 2Ouvi que eu sou morena e não negra muitas vezes ao longo de minha vida. Aprendi apenas com o tempo a me  posicionar, a me reconhecer sem rodeios. E entre minhas identidades está também o ser contadora de histórias, o ser escritora, o ser poeta nesta lide permanente com a palavra como veículo de troca, de comunicação, de expressão. E acabei por assumir como parte de meu desejo de um mundo mais justo o uso de minha palavra para levar as coisas que vejo, percebo e sinto. Pretensiosamente numa intenção de tocar o outro, de chegar ao outro, de desvendar véus.
Acredito veementemente que o mundo é uma obra sempre inacabada, sempre em  reconstrução de si mesma e um dos seus espaços de acontecimento é o cotidiano e tudo o que ele carrega de simbólico e pungente, algumas vezes tocado apenas pela arte.

LUciaNa PInTo

Pra começo de conversa mulher e mulher negra. É, e negra desavisada ao nascer. Negra de construção diária, fio a fio de cabelo, tom sobre tom de melanina, sob o desafiador olhar mestiço-esbranquiçado dos muitos que me circulavam.
Até que um dia, do nada, alguém falou – você escureceu!?
Lu (80)Escureci sim, escureci a alma… Talvez mestiça de alma negra. Não sei, só sei que foi ali que eu aquietei o coração.
E a quem me enxerga da cor que lhe  possível, só me cabe lançar mão da parcela coletiva de muitos, tantos pensamentos que me habitam e sair provocando, perguntando, entendendo, lendo, escrevendo, vestindo, cantando, dançando, poetizando, imprimindo um jeito diferente de estar no mundo. Enfim, construção que nunca acaba. Por isso eu me acheguei.

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