Bronzeamento Artificial ou Filtro de Proteção domingo, mar 7 2010 

Racismo Existe
Prova 22: Negros também têm pele

Ricardo era o marido negro de uma garota branca, loira, mais precisamente. Todos os domingos iam à praia. Ele, ela, suas irmãs, um grupo enorme, que esperava o fim de semana com ansiedade e curtia o verão com alegria.

Jogo de vôlei, cervejinha, comidinhas de praia e bom papo. Era sempre assim. Ficavam até que o sol se escondesse atrás dos prédios e a sombra tomasse conta da areia. Daí, o vento já era frio e os comerciantes já começavam a desmontar as barracas. O anúncio de que era hora de ir pra casa e começar a se arrumar para mais uma semana que se iniciava.

Certo domingo, porém, entre uma das várias partidas de vôlei, uma amiga da turma da praia dirigiu-se ao rapaz em alto e bom som: “por que você pára no intervalo do jogo pra colocar bronzeador? Você acha mesmo que faz alguma diferença, ou usa só pra gastar?” Silêncio total. Lá na praia e aqui, agora. Por um instante fiquei mesmo sem saber como continuar.

Aí fui buscar em meus arquivos, a sensação de como me senti ao ver a cena. Criança que acompanhava o grupo, observei atenta, mas ainda esboçando naturalidade. O que haveria demais? A pergunta foi calada pela introjeção natural da idéia que, defato, talvez a adulta tivesse razão e não fizesse diferença para uma pessoa negra usar ou não bronzeador. Afinal, sua pele não conseguiria expressar bronze, tão escura já o era.

Anos depois, a mesma menina, que àquela altura, adulta, há muito já se tecia negra, cultivava o saudável hábito de caminhar em um parque público da cidade, acompanhada de uma amiga. Esta, cheia de cuidados com a pele, para não ter sinais de envelhecimento precoce, não despelar, não desidratar, ao encontrar com outra parceira de caminhada, pergunta: “por que você demorou?”. “Ah – responde ela – desculpe, mas é quando cheguei em baixo do prédio, lembrei que precisava passar protetor solar, aí voltei em casa por alguns minutos”.

A amiga afirma categoricamente: “é, é bom mesmo você ter esse cuidado, porque, afinal, negros também têm pele”. Em tempo que isso desconstruíra a idéia introjetada no passado de que negros passam bronzeador ou outros produtos de pele só pra gastar, o tom de voz não veio menos carregado do discurso implícito de que nós negros temos mais resistência ao sol, mas mesmo assim podemos e até precisamos, “nos dar ao luxo” de usar o protetor solar.

Algo de natural, alguém leria. Há um fato concreto em dizer que pessoas de pele branca precisam de mais proteção. Mas, tendo em conta essas falas, será que passa só por aí a discussão da relação entre o poder e o precisar usar o que se quer, onde e quando se quer?

Talvez eu esteja aqui, para muitos, apenas estimulando neuroses, com excesso de patrulhamento, para outros, só tenha lançado mais uma questão, tentado ver o que está por trás de falas tão corriqueiras e na maioria das vezes desprovidas de malícia e que, portanto, descaracterizam, para a maioria do senso comum, a internalização do racismo no imaginário do senso comum.

Mas voltando à questão da pele: e você?! Qual o seu “filtro de proteção”?!

Por Luciana Pinto

Crédito foto: http://thumbs.dreamstime.com/thumb_347/1230263188A7xAfs.jpg

Pressupostos quarta-feira, fev 24 2010 

RACISMO EXISTE:
Prova 21: o que os nossos olhos vêem.

A vida está cheia de pequenos atos. Eu até que já confessei isso antes, gosto de um pouco de filosofia de almanaque, comum, banal, proverbial, do tipo que nos dizem…após as tempestades, vem a bonança, enfim. Voltando ao começo, o cotidiano está repleto dessa miríade de acontecimentos que se repetem, reatualizam-se, contam-nos histórias sem fim, confirmam realidades para as quais precisamos olhar, desvelar, revelar.

As mesas de bares e restaurantes são, para mim, um lugar privilegiado de observação dessa vida cotidiana que acontece em pequenos pedaços, em detalhes, palavras e jogos nem sempre sutis, raro inocentes, uma experiência quase sempre antropológica. Outro lugar interessante são os bancos, suas filas e seus gerentes ansiosos por metas, eu que só tardiamente descobri que bancos fazem dinheiro vendendo dinheiro, boba inocência.

Um dia. Um restaurante. Na mesa pessoas todas simpáticas e lindas. Papos sobre cultura, arte, mudanças sociais, planos de mundos melhores. Fala-se sobre questões várias. Artesanato aqui, racismo acolá, anti-depressivos, homeopatia, doenças contemporâneas, questões outras seculares, o casamento de amigas lésbicas. Neste ponto, a única pessoa negra da mesa conta o quanto foi difícil para uma mãe, parenta sua, aceitar o filho gay. Outra integrante do grupo, recém apresentada à primeira, comenta solidarizando-se: “imagino o que tenha enfrentado… gay, ainda por cima negro e pobre”.

Outro dia. Um banco. Uma mulher jovem negra entra para abrir uma conta. O gerente a olha e o seguinte diálogo se desenrola:

– Já não disse que não atendo à empresa X?

– O que é isso? A mulher pergunta.

– Uma empresa terceirizada de limpeza.

Deveríamos todos nos perguntar, ao menos de vez em quando, o que os nossos olhos vêem quando enxergam uma pessoa negra. Sem grandes censuras, deveríamos escutar a resposta automática sobre quem este outro é. Quais são os adjetivos que antecipadamente nos acodem, a que lugares julgamos o outro pertencer, qual é supostamente seu nível social e econômico. Não raras vezes nos surpreenderíamos com a distância entre o percebido e a realidade.

A única mulher negra daquela mesa de restaurante pertence a essa coisa banal chamada classe média, com considerável poder de consumo, cartões de crédito e seus derivativos. Seu parente gay tal e qual. Por sinal, nem é negro, ainda que seus traços não escondam seu pertencimento a uma família multiracial. A mulher jovem diante do gerente, também classe média, só queria abrir uma conta.

O que nos faz pensar que uma mulher negra fatalmente é pobre ou, sequer, dispõe de algum poder de consumo, essa unidade básica de existência do capitalismo, isto é racismo. Saberíamos se ouvíssemos com franqueza às pressuposições cotidianas de nossos olhos.

Texto e imagem: Keu Apoema

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