Fechamento sábado, dez 10 2011 

Todo projeto tem seu tempo, sua idade, seu ciclo de vida.

O Racismo Existe foi uma proposta que desenvolvemos ao longo de 2009, cujo objetivo foi evidenciar formas de discriminação presentes no cotidiano de homens e mulheres, adultos e crianças. No centro de nossas escritas estavam as “provas”, uma série de 23 textos trazendo vestígios, às vezes não tão velados, de práticas racistas, perpassando temas como: cabelo, miscigenação, mídia e propaganda entre outros.

Além desses, publicamos outros textos, com outras parcerias. Foi uma experiência e tanto. Mas em março de 2010 decidimos encerrar. Publicamos o último texto. Ainda acreditamos que o racismo é uma marca forte e muito presente em nossa sociedade, decidimos apenas continuar a luta e as reflexões em outras frentes, de outras maneiras.

Ao final, deixamos o blog no ar, fica como acervo, como fonte para aqueles que, aventurando-se por esses mares virtuais, pesquisem, estudem e reflitam sobre a questão racial.

Luciana Pinto e Keu Apoema

Salvador, 20 de novembro de 2009. sexta-feira, nov 20 2009 

Ver Muito Mais do que a Cor
Ou Negra é a Raiz da Liberdade

As palavras são portadoras de sentidos. Pronunciá-las, especialmente em algumas situações, deveria ser encarado com certa sacralidade. Elas dizem na definição crua de seus vocábulos, nos meios de suas entrelinhas, nas suas muitas possibilidades de significados, no seu inuméravel potencial de interpretação.

As palavras, incorporadas pela voz, conjugam em si emoções. Mesmo quando escritas elas encontram ressonância nos sentimentos de quem as lê. Palavra. Emoção. Linguagem. Sentidos. Paradoxos. Tais reflexões pairam em torno de nós enquanto lemos, na véspera do dia da Consciência Negra, mensagens em busca de outras realidades, onde possamos ver além da cor.

Ver além da cor é o desejo de um mundo possível. Ver além do sexo. Ver além da orientação sexual. Ver além de deficiências físicas ou mentais. Ver além. No âmago de todas as diferenças encontraríamos o algo a mais, aquilo que nos torna humanos, nossos desejos e potencialidades, nossas contradições, luzes e sombras, pessoas, nós todas, capazes de construir caminhos próprios, de nos movimentarmos por todos os espaços, de criarmos infinitamente.

Entretanto, ver além parece significar a reconstrução de todo um imaginário ou a transcendência. Somos seres concretos, olhamos concretamente para as coisas e as pessoas. Para suas alturas, seus pesos, idades, seus cabelos, suas roupas, a forma como se movimentam como falam. Tudo o que vemos nos traz informações sobre quem ele ou ela, aquele que vemos, pode ser. Ver além tem um laço invisível e impossível de ser desatado com o aquém e o agora.

Em meio às manifestações do dia 20 de novembro – entre campanhas, mobilizações e eventos, nos deparamos com estas mensagens por toda a Salvador.

O objetivo, valorizar a identidade negra.

As imagens: jovens, mulheres, mães de santo, intelectuais.

As palavras: “Mude sua visão. Há muito mais para ver do que a cor da pele”.

As pessoas: MV Bill, Ivone Lara, Zezé Motta, Luislinda Valois, gentes que estão ai somando conosco em várias outras frentes.

No tecer de tudo, a associação imediata de suas feições a guerreiros diversos da luta cotidiana por igualdade e pela não discriminação. Tantos outros nomes, tantas Albas, tantas Janiras, Rosa Marques, Rosanas, seu Café, Walter Rui, Gilberto Leal, Rafael Pinto, Jairo de Jesus, Gláucia Pereira, Itanacy Oliveira, pessoas que fazem história nas – e a partir – das suas próprias histórias.

Uma jovem negra diz ficar feliz com as palavras tais. No dia em que foi contratada, na ata da ONG para a qual trabalha, constou a observação sobre a cor de sua pele. Não seria nada se nesse mesmo dia, não tivesse sido contratada outra mulher, branca, mas sobre a cor de sua pele, nenhuma menção. Quer cantar e ser reconhecida por sua voz. Quer transitar por todos os espaços sem que seja considerada a exceção e, por isso, necessariamente apontada por um dedo que a distingua. Quer ser vista além de sua cor. Muitos outros assim o desejam. Casais inter-raciais de repente flagrados, homens e mulheres simplesmente bonitos, profissionais simplesmente competentes.

Certamente há muito para ver além da cor da pele, mas não como quem finge que não a vê para supervalorizar outras coisas. De repente, precisamos sim, ver tudo, o cenário todo, a pessoa inteira, INCLUSIVE a COR e aí sim, ir além dela.

Ver muito mais do que a cor tem duas faces, a do desejo e a das impossibilidades. A do desejo de futuro e a enraizada no passado. Há sempre pessoas que tentam se enxergar ou enxergar o outro além da cor, para afirmá-la ou negá-la. Paradoxos.

Para nós, porém, ver além da cor é algo que figura aqui como uma ponte. Uma ponte para o dia em que não precisemos gerar expectativas diferenciadas sobre pessoas negras, brancas ou mestiças. Afinal, não é preciso ser um líder da luta racial para ser visibilizado em sua identidade e respeitado em sua humanidade.

O ver agora além da cor não precisa ter como condicionante o receio de uma injustiça futura. Até porque no racismo a injustiça é presente, e ela se dá bem ali: na pracinha ao lado da sua casa ou na parada do ônibus onde pregado o cartaz da campanha.

Palavras. Palavras que podem servir a distintos fins. Nós seguimos com as nossas, as nossas palavras, na mesma luta cotidiana, dizendo apenas, precisamos ver, precisamos enxergar o que existe e o que está por trás do que existe. E oxalá, chegar assim, ao dia em que não precisemos de um mês, de uma única data – se não para lembrar lutas passadas – até conseguirmos chegar ao estágio de – antes de “ver além da cor”, ver a cor e ir além.

Keu Apoema e Luciana Pinto

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