Beyoncé, a Ala Vip e o Racismo Institucional sexta-feira, fev 19 2010 

Provocado pela mídia me desloquei com um amigo para o show de Beyoncé no Parque de Exposições. Havíamos comprado ingressos para a pista Vip, área restrita a quem pagasse R$ 370. Enquanto assistíamos ao show de Ivete Sangalo veio um exemplo de racismo institucional. Uma guarnição da Polícia Militar abruptamente abordou o meu amigo, circundando- o e já levando-o de modo truculento, sem nada perguntar.

Ao me aproximar para saber o que estava acontecendo, os soldados me afastaram. A  resposta do corpo policial traduziu força e ameaça, mesmo que implícita, sem nenhum texto, a não ser o gestual, e demonstrou que não há verbo capaz de estabelecer um diálogo entre sujeitos que detém e os que devem ser alijados de alguma relação com aqueles que personificam o poder.

O meu amigo estupefato não reagiu. Foi levado para um canto da pista VIP,
próximo aos holofotes e humilhado pela revista policial, como se estivesse
cometido um delito. Por fim, após a crueldade de todo o rito da PM, ouviu a seguinte frase:  “houve um roubo aqui na área VIP e soube que a pessoa era do seu estilo”.

Qual estilo, cara pàlida? Respondo: o da cor/raça. Meu amigo é negro retinto.

A área VIP era formada majoritariamente por indivíduos de classe média e branca. Se comparada com a área de pista mais barata, ali havia uma proteção policial considerável, mesmo sendo uma área reservada e sem grande fluxo de pessoas. A lógica da distribuição policial em espaços de eventos elitizados parece obedecer a critérios. Quais? Procuremos os sentidos implícitos, jà manifestos na distribuição desigual da PM na cidade do Salvador.

Diante desse fato de racismo explícito, o que dizer dos olhares das pessoas
diante de tal brutalidade? Ao ver um negro sendo levado por policiais, mesmo ele estando na área VIP, algo que indica um diferencial em termos de classe, um sentimento de proteção emana das cabeças ali situadas.

A naturalização do racismo “uma pessoa negra sempre é suspeita”, associa-se aos que imaginam estarem sempre sendo protegidos pela corporação militar. Exemplos como esse abundam no País. O diferencial é que foi na ala VIP de um show. Lembro-me que no debate sobre as cotas raciais nas universidades os que eram contrários insistiam em dizer que no Brasil era difícil definir quem é negro. A resposta dos ativistas atualizou-se na área VIP para ver Beyoncé: pergunte à polícia. Ela saberá.

Jocélio Teles (*)

Jocélio Teles é doutor em antropologia e coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Ufba ( Pós Afro).

Carta de Vânia quarta-feira, ago 19 2009 

Meu nome é Vânia Alves Smith Lima, sou jornalista de formação, Sou casada há quase 2 anos com Cláudio Antônio Souza de Jesus. Somos um casal fisicamente diferente, ele é negro, alto, rastafári, eu sou branca, e tenho cabelos encaracolados.

No último dia 08 de agosto por volta das 19h30 iniciei, no espaço de convivência do meu prédio, uma festa de comemoração ao meu aniversário, onde eu reuni cerca de 40 convidados; entre eles a família de Cláudio.

Ao realizar a festa já havíamos combinado que o som funcionaria até as 22h e depois diminuiríamos até encerrar por volta da meia noite. Tudo corria bem, estávamos muito felizes, NENHUM VIZINHO DEMONSTROU QUALQUER PROBLEMA COM O SOM. Por volta das 21h30 ouvi algumas pessoas na entrada do prédio conversando com Cláudio, eram dois policiais militares, imaginei que eles estavam falando sobre alguma outra coisa, pois A VIATURA ERA DE ITAPUÃ.
A seguir Claudio abaixou o volume do som e assim ficou. Por volta das 23h30,quando alguns convidados já se despediam, me surpreendi de ver um homem alto, muito musculoso, usando short de elástico, camiseta e chinelo, apontando o dedo para Cláudio, na frente de todos, dizendo que ele estava preso porque não havia diminuído o volume do som. Ao lado deles estavam DOIS POLICIAIS QUE NÃO PORTAVAM IDENTIFICAÇÃO, um deles ARMADO COM UMA
METRALHADORA e outro algemando Cláudio; desci as escadas até onde eles estavam e perguntei: “Gente, o que é isso?”.

Então me dirigi a este homem de short e ele me respondeu que era autoridade. Reagi e gritei: “saia da minha casa, você não tem o direito de entrar aqui”; ele me respondeu retirando a pistola do short e apontando em direção a minha cabeça. Na hora não pensei em nada só em ficar entre ele e Cláudio, e empurrar aquele homem mesmo armado, e pedia aos policiais “por favor me ajudem, quem é esse homem?” Os policiais nada faziam, e o homem sendo empurrado pegou com a outra mão o celular e dizia, “é melhor vocês subirem, que eles não querem deixar eu levar”; como num passe de mágica mais 3 viaturas apareceram e os policiais arrastaram Cláudio algemado para fora de casa, comigo e mais 20 pessoas que gritavam e se agitavam com tantas armas e policiais na nossa rua, que é
apenas de residências e não tem saída. TODOS OS POLICIAIS ESTAVAM SEM AIDENTIFICAÇÃO.

Cerca de 10 policiais começaram a coagir as pessoas e muita gente estava chorando no meio da rua. Foi quando uma viatura chamada por uma das minhas convidadas chegou com um Oficial com identificação que se apresentou, e disse que precisávamos ir a delegacia, pois aquilo estava fora de controle,assim finalmente retiraram a algema de Cláudio e fomos até a delegacia do Rio Vermelho. Lá esperamos a delegada, que colheu as versões e perguntou a
Cláudio se ele gostaria que continuasse a investigação e ele disse que sim. Nossos depoimentos foram agendados. Também fomos a corregedoria da PM e prestamos queixa.

Escrevo, para perguntar a vocês: O QUE É ISSO? Pois no auge da minha idade e experiência não consigo entender, como um vizinho, que mora a 300 metros da minha casa, não vem e conversa comigo sobre qualquer problema, porque um vizinho pegaria uma PISTOLA e colocaria na cintura NO MEIO DA NOITE e entraria na minha casa? Por causa de um som, que ninguém reclamou? Porque os policiais não tinham a identificação? Porque este homem gritava e humilhava Cláudio na frente da família dele e dos amigos? Porque algemar uma pessoa desarmada e que não oferecia nenhum perigo? O que teria acontecido com Cláudio se eu não reagisse? Se meus amigos não fosse em bloco para a delegacia? Se o policial acionado pela nossa casa não tivesse chegado? Não tenho respostas. E isso me consome. O medo de uma Policia coorporativa que não protege o cidadão nem da arbitrariedade da própria policia, que ataca, que humilha. Estou esgotada de pensar e não conseguir as respostas. Porque infelizmente acho que sei as respostas.

Ao fim, isso poderia acontecer com qualquer amigo, vizinho, conhecido, não sou diferente de ninguém.
Meu nome é Vânia Alves Smith Lima, meu RG é 0709630883, moro no AP. 02, fui humilhada e coagida por um homem que dizia ser oficial da PM armado com uma Pistola, de shorts, camiseta e chinelo, que invadiu a minha casa e conseguiu reunir 5 viaturas policiais e cerca de 10 PMs, num sábado a noite, motivado por um som que não incomodou nem aos meus vizinhos de parede. A arma deste homem, além do consentimento dos colegas Policiais, foi sua
PISTOLA e a sua “AUTORIDADE”.

A minha arma e de Cláudio são as palavras, e minhas testemunhas, que agora passam a ser vocês. Temos medo, mas não vamos desistir da nossa dignidade e nem do direito de resistir a brutalidade, a opressão e ao abuso.

A você que leu esta carta peço ajuda. Resista também, e fique consciente do que esta acontecendo. PRECISAMOS NOS INDIGINAR E TAMBÉM USAR NOSSAS ARMAS.

contatos – vanialima@limacomunicacao.com.br

Salvador, 10 de Agosto de 2009