RACISMO EXISTE
Prova 19: À luz do dia, em pleno século XXI.

Estava tudo perfeito. Foram momentos incríveis de descanso, diversão e amizade. Mas, como nada é tão ideal, ou, pelo menos, não por tanto tempo, o que vimos justo no último instante, quase última cena, último ato, desmanchou um pouco o encanto… Tudo bem, é a vida real, mas nem por isso achemos que aquela cena deva fazer parte de uma normalidade cotidiana que passe pelos nossos olhos sem nos chocar.

Aos fatos: caminhávamos tranquilamente pelo bairro do Recife Antigo, na capital pernambucana, em busca de um lugar pra almoçar, depois de algumas horas num engarrafamento. Nesse percurso, a cena que nos chamou atenção: três policiais militares abordavam um jovem negro e o colocavam encostado na viatura apalpando-o; um deles pergunta ao rapaz pelos seus documentos, que ele não portava.

Ao nos ver passar, diminuiu o tom de voz, mas continuou insistindo com os tais documentos. E depois que seguimos, o policial continuou num tom de ameaça: “da próxima vez que pegarmos você sem documento…” Nesse momento, eu já nem me perguntava, mas tinha uma certeza, a de sempre: racismo existe, sim, à luz do dia, debaixo dos nossos olhos e cometido por agentes do Estado. Outra certeza é que eu, mulher branca, não passaria por aquela situação, não seria um alvo da polícia, que mira, escolhe, seleciona, aquelas pessoas que vai “corrigir”, discriminar, abusar.

A polícia deve atuar para garantir a segurança das pessoas, e, sobretudo, prevenindo e investigando crimes. Mas qual crime cometemos se não estivermos portando um documento de identidade? Eu responderia: depende, depende do “perfil” do “sujeito”…

Do contrário, por que eu não fui parada naquele momento por aqueles policiais para mostrar algum documento? Isso me lembra o crime de vadiagem, previsto no Código Penal do Império (1930), e que, atualmente, subsiste no Brasil como contravenção penal. Mas, ora, pra quem foi dirigida essa norma? Para os ex-escravos que abandonassem sua circunscrição de origem por cinco anos (conforme a Lei dos Sexagenários), aos quais seria imputado o crime de “vadiagem” caso fossem encontrados fora do seu domicílio. E aí, seriam encaminhados para trabalhos públicos ou colônias agrícolas. Hoje eles estão nos camburões das viaturas, nos xadrezes das delegacias, nas celas dos presídios e penitenciárias…

Passados mais de 120 anos da abolição da escravatura, começamos 2010 com um novo Programa Nacional de Direitos Humanos, em sua terceira versão, que, dentre outras medidas, prevê a inquestionável garantia do direito à memória e à verdade em relação aos presos políticos, desaparecidos e mortos pelo Regime Militar, reafirmando a devida reparação pelo Estado brasileiro, com o pagamento de indenizações. Mas e a reparação para os “vadios” de hoje? Aqueles/as que foram e ainda são aviltados no seu cotidiano não só pelo aparato policial, mas por diversos segmentos da sociedade? E a reparação para as mães que vêem seus filhos sendo assassinados diariamente pelos agentes do Estado?

No fim daquele dia ainda fui assistir ao telejornal local, que mostrava uma matéria sobre o plantio de 500 mudas de árvores representando o número de pessoas que deixaram de ser assassinadas no estado de Pernambuco no ano de 2009… As mudas foram plantadas num parque, através de um projeto chamado Bosque da Esperança. Esperança… Espero que ela não fique presa no tal parque.

Ludmila Cerqueira Correia