Fechamento sábado, dez 10 2011 

Todo projeto tem seu tempo, sua idade, seu ciclo de vida.

O Racismo Existe foi uma proposta que desenvolvemos ao longo de 2009, cujo objetivo foi evidenciar formas de discriminação presentes no cotidiano de homens e mulheres, adultos e crianças. No centro de nossas escritas estavam as “provas”, uma série de 23 textos trazendo vestígios, às vezes não tão velados, de práticas racistas, perpassando temas como: cabelo, miscigenação, mídia e propaganda entre outros.

Além desses, publicamos outros textos, com outras parcerias. Foi uma experiência e tanto. Mas em março de 2010 decidimos encerrar. Publicamos o último texto. Ainda acreditamos que o racismo é uma marca forte e muito presente em nossa sociedade, decidimos apenas continuar a luta e as reflexões em outras frentes, de outras maneiras.

Ao final, deixamos o blog no ar, fica como acervo, como fonte para aqueles que, aventurando-se por esses mares virtuais, pesquisem, estudem e reflitam sobre a questão racial.

Luciana Pinto e Keu Apoema

Pressupostos quarta-feira, fev 24 2010 

RACISMO EXISTE:
Prova 21: o que os nossos olhos vêem.

A vida está cheia de pequenos atos. Eu até que já confessei isso antes, gosto de um pouco de filosofia de almanaque, comum, banal, proverbial, do tipo que nos dizem…após as tempestades, vem a bonança, enfim. Voltando ao começo, o cotidiano está repleto dessa miríade de acontecimentos que se repetem, reatualizam-se, contam-nos histórias sem fim, confirmam realidades para as quais precisamos olhar, desvelar, revelar.

As mesas de bares e restaurantes são, para mim, um lugar privilegiado de observação dessa vida cotidiana que acontece em pequenos pedaços, em detalhes, palavras e jogos nem sempre sutis, raro inocentes, uma experiência quase sempre antropológica. Outro lugar interessante são os bancos, suas filas e seus gerentes ansiosos por metas, eu que só tardiamente descobri que bancos fazem dinheiro vendendo dinheiro, boba inocência.

Um dia. Um restaurante. Na mesa pessoas todas simpáticas e lindas. Papos sobre cultura, arte, mudanças sociais, planos de mundos melhores. Fala-se sobre questões várias. Artesanato aqui, racismo acolá, anti-depressivos, homeopatia, doenças contemporâneas, questões outras seculares, o casamento de amigas lésbicas. Neste ponto, a única pessoa negra da mesa conta o quanto foi difícil para uma mãe, parenta sua, aceitar o filho gay. Outra integrante do grupo, recém apresentada à primeira, comenta solidarizando-se: “imagino o que tenha enfrentado… gay, ainda por cima negro e pobre”.

Outro dia. Um banco. Uma mulher jovem negra entra para abrir uma conta. O gerente a olha e o seguinte diálogo se desenrola:

– Já não disse que não atendo à empresa X?

– O que é isso? A mulher pergunta.

– Uma empresa terceirizada de limpeza.

Deveríamos todos nos perguntar, ao menos de vez em quando, o que os nossos olhos vêem quando enxergam uma pessoa negra. Sem grandes censuras, deveríamos escutar a resposta automática sobre quem este outro é. Quais são os adjetivos que antecipadamente nos acodem, a que lugares julgamos o outro pertencer, qual é supostamente seu nível social e econômico. Não raras vezes nos surpreenderíamos com a distância entre o percebido e a realidade.

A única mulher negra daquela mesa de restaurante pertence a essa coisa banal chamada classe média, com considerável poder de consumo, cartões de crédito e seus derivativos. Seu parente gay tal e qual. Por sinal, nem é negro, ainda que seus traços não escondam seu pertencimento a uma família multiracial. A mulher jovem diante do gerente, também classe média, só queria abrir uma conta.

O que nos faz pensar que uma mulher negra fatalmente é pobre ou, sequer, dispõe de algum poder de consumo, essa unidade básica de existência do capitalismo, isto é racismo. Saberíamos se ouvíssemos com franqueza às pressuposições cotidianas de nossos olhos.

Texto e imagem: Keu Apoema

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