O “Falso Pudor” quinta-feira, set 10 2009 

Ao começar a escrever, um impulso inicial me toma. Por alguma razão, isso me parece extrapolar o hábito, de forma que não ousaria afirmá-lo enquanto uma mera obediência ao estilo ou a alguma tradição lingüística. Sinto-me, ao contrário, muito mais empolgada com as imagens que me colocam diante das coisas, ou dos fatos, ou melhor, das conexões, filigramas cintilantes que embalam uma experiência de vida que é primeiramente estética, afetiva. É por este prisma que gostaria de observar refletidas as idéias que pousam agora acerca das relações raciais.

Pois então, esta pretensa razoabilidade é invocada apenas para afirmar o nosso ponto de apoio. E isso não é pouco, afinal tratamos aqui de um dos jogos mais perversos, um jogo aqui e ali, que se mostra e se esconde… Racismo à brasileira, racialização à brasileira, à imagem de um prato, só se for algo bem indigesto, já que é muito mais agradável simplesmente sobrepor a imagem publicitária de brasileiros sambando sem distinção… quanta enganação!

Bem, já passa da hora de dizer que o ponto de apoio do que aqui se enuncia faz parte de um conjunto de debates que preenchem o hiato entre a Educação e Relações Raciais. A questão em voga é o impasse entre de um lado um modelo universalista e do outro um modelo em construção baseado na diversidade. A idéia da diversidade é bem aceita em seus contornos multicoloridos dos holofotes publicitários, entretanto há enorme indisposição quando o assunto é colocar em prática, é o estranhamento dos hábitos, é mexer em estruturas sociais, em formas seculares de educar. Como o assunto é extenso, a opção que faço aqui é refletir sobre um dos pontos nodais da questão, um ponto que defino aqui como “falso pudor”.

Em primeiríssima linha este falso pudor é equivalente à tentativa pouco sustentável de referir-se ao caso brasileiro como uma sociedade mestiça, em que todos são brancos, negros e índios em alguma medida (genética até!!) e portanto não existe razão alguma para destacar políticas específicas para diferentes grupos. Apoiada na idéia de que não praticamos os crimes raciais que se observam em outras realidades, aí está posto o princípio de que na sociedade brasileira cada um sabe qual é o seu lugar e, portanto vivemos em equilíbrio, numa democracia racial.

Que tal? E tem mais… Ainda no rastro destes estranhos pareceres, está a acusação de que as organizações interessadas em colocar em debate as questões raciais estão produzindo uma cisão entre grupos, uma racialização sem precedentes, um racha social que coloca os grupos uns contra os outros. Não seria interessante nos perguntarmos, nem que seja por diletantismo, se existe em nossa sociedade cisão entre grupos sociais? Se existem grupos uns contra os outros? Se existe livre circulação nos espaços de sociabilidade? Se existe discriminação pela cor da pele?

Após este pequeno exame, não seria também importante nos perguntarmos como uma posição crítica diante de uma realidade desigual pode aprofundar aquilo exatamente a que se opõe? É a maneira mais cínica que eu conheço de tentar desmobilizar um movimento social. É o equivalente a dizer que a luta pela terra aprofunda o latifúndio, a luta pelos direitos da mulher aprofunda a violência, a idéia é revestida, maquiada, ressonante em novas cordas vocais que se precipitam em debates cujo domínio ignoram, mas é a velha mentalidade escravocrata que temia a abolição pois a sociedade dos engenhos estava equilibrada. É assim que se define o equilíbrio social, e as instituições são criadas para manter este equilíbrio (o mesmo que define o lugar de cada um…) e nem que seja com a força da bala, método que aliás se torna cada vez mais privilegiado no momento em que travamos a nossa discussão acerca das desigualdades.

È este o amálgama do “falso pudor” em tratar as questões raciais. Pudor falso e equivocado que acha inadequado chamar negro ou negra, chamar raça, que ignora a intensa racialização que começa de berço, as formas de educar discriminando, as sutilezas e não sutilezas da exclusão. Que teme pois já sabe qual é o seu lugar e o seu conforto no travesseiro. Que nem sabe o que fala e repete o primeiro deixa-disso televisionado que lhe caia bem como uma bóia, enquanto planeja as próximas férias…

Daniela Martins

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O Cálculo e a Medida do Social quarta-feira, ago 19 2009 

Com dois copos de farinha se faz um cuscuz pra duas pessoas. Com aproximadamente quatro colheres de sopa pode-se dividir o café com mais duas ou três. Demoro quinze minutos para atravessar três quarteirões, sem trânsito. A previsibilidade segue aí a rotina do cálculo.

 Calcular supõe medir, comparar termos, equivaler proporções. Há todo um aparato de cálculo que serve de suporte, meio técnico para afirmar a ação. Há medidas que são adotadas como referências para que se possa variar escalas, avançar em análises e ações, tomar a questão a sério, trabalhar seriamente nas definições do contorno de certas questões. Enfim, dedicar uma vida, uma história ao tratamento de uma questão.

 Como deve parecer estranho, ou ainda, pouco evidente, por uma espécie de decalque, trata-se aqui de uma breve menção ao cálculo como pressuposto da ação social. Com algum esforço, faço o exercício de deixar em suspenso o fato de que teorias baseadas nesta premissa me são pouco palatáveis. Inevitável talvez seja o efeito deste esquema sobre uma dinâmica, uma performance, uma ação iniciada, “em cuja ausência haveria nada ao invés de alguma coisa”…

 Estas últimas palavras ressoam… parecem pouco autênticas, sem marca e sem questão, como se a

q u a l q u e r  momento pudesse acontecer… q u a l q u e r   c o i s a. . . E pode ser que sim, tomando como naturalidade o acaso. Mas pode-se compreender o sentido da opinião pública como um evento espontâneo?

 Enquanto a política compreende  em algum grau a sociabilidade da vida íntima, e nos debatemos com as equivalências entre o social e o individual, um incômodo transforma-se numa questão: Qual seria o motivo pelo qual determinadas ações sociais encontram “paredões” sucessivos de questionamentos, exigências de precisão, desconfianças, ou até mesmo algumas paranóias generalizadas num pouco sustentável medo?

 Ações afirmativas como cotas raciais nas Universidades são, atualmente, umas das mais questionadas intervenções sociais. Embora emancipadas de discursos de base assistencial como a legenda das   políticas de reparação, e avançadas do ponto de vista da constituição de medidas, referências, dados, análises, explicitação dos fatos, a questão da entrada na Universidade através de uma proporcionalidade mais justa e igualitária parece às vezes uma questão intransponível. Ainda que aí se fale a língua, se jogue o jogo da ciência: Da mesma forma que na extração de uma amostra de uma população procede-se à estratificação com proporcionalidade de diferentes grupos, para garantir a fidedignidade, validade estatística, em quais bases nos firmamos para garantir a universalidade na Universidade?

 Justificativas, prazos, contra-argumentos e a transferência do problema para outros níveis de escolarização, a invenção de formas de dar as costas, de eternizar-se no mármore. Numa proporcionalidade equivalente também não são visíveis, ou pouco facilitado é o acesso ao avanço de pesquisas e elaboração de medidas para o tratamento coletivo de realidades como o preconceito e a discriminação, danos sentidos por gerações inteiras. Nesse terreno, o cálculo e a medida perdem a precisão, portanto é inestimável e inafiançável o estrago.

 Acontece que as medidas imprecisas de reparação não podem suprir o aparato de produção de avarias, a menos que se possa regular, com freqüência, este funcionamento. Contemplar as necessidades diferenciais, garantir equidade na distribuição dos diversos grupos sociais na apropriação do que é público, entre outras formas, são ou não partes, espectros de formação do processo de universalização? Sem estas medidas, a universalização parece transformar-se numa categoria abstrata e incompreensível porque vazia, logo insustentável.

Daniela Martins