RACISMO EXISTE
Prova 20: Que arte imita que vida?

Há cerca de dois meses a internet parou pra discutir elementos da questão racial, problematizados por alguns sujeitos críticos que viram na TV a cena em que a personagem de Taís Araújo, na telenovela global Viver a Vida, mais uma sofredora Helena de Manoel Carlos, se ajoelhava e se deixava esbofetear de forma humilhante diante de uma mulher branca, altiva e mais velha, assumindo a culpa por um acidente, pelo qual nem de longe foi responsável.

Em que pese o “detalhe” de a cena ter sido exibida na semana de luta pela igualdade racial, esta, que em vários elementos lembrava os castigos dados aos escravos das novelas ambientadas no Brasil colonial, circulou o youtube e eu mesma, recebi vários e-mails, fazendo reflexões sobre aquela situação. Na hora pensei: “ainda há algo a ser pensado e dito por aí”. Mas não quis forçar e  deixei quieto por um tempo.

A questão é que a inquietação sobre a história da Helena voltou a me provocar há uns dias. Ligo a TV, e por infortúnio, me deparo com uma cena em que a a primeira protagonista negra do horário nobre global agora vive escravizada em um “castelo”, casada com um homem mais velho, branco, rico e que lhe diz com todas as letras: “eu não quero que você trabalhe e detesto seus amigos vadios”.

Pois é, a moça tenta contrapor, mas não convence. Não vou aqui discutir os méritos da atriz, mas preciso dizer que foi exatamente essa cena que me confirmou a hipótese –  Manoel Carlos, ainda reservaria muito sofrimento para aquela “Cinderela” depois do usual: “foram felizes…” para sempre?”. Quando eu lanço essa discussão nas mesas de bar, as pessoas sempre contra-argumentam dizendo: “ – ah, mas no final ela vai ficar com o Thiago Lacerda”. Pois é, depois de ter “pago todos os seus “pecados” vivendo uma escravidão subliminar, disfarçada de pobre menina rica, a Helena terá o seu prêmio de consolação. Quem sabe uma alforria! Assim, está previsto que a moça terminará seus dias com outro “senhor”, igualmente branco, com ares de europeu colonizador, mais jovem, o belo Thiago Lacerda, que na trama é um fotógrafo, cidadão do mundo, um Dom Juan que revê seus conceitos ao fitar os olhos da bela modelo.

Não raro, essa aparição principesca do personagem Bruno, assumido pelo citado galã global,  me remete ao carismático Sinhozinho Álvaro – o fazendeiro vizinho de Leôncio – que desposou a escrava Isaura no dia da Abolição há cerca de 30 anos. Na trama dos anos setenta, Álvaro, personagem de Edwin Luisi, ficou conhecido nas cercanias de São Paulo por ter sido capaz de “promover uma escravidão mais justa”.

Para Manoel Carlos, ou para os globais que o cortejam, parece que há um grande gesto de consciência das problemáticas raciais vividas no Brasil, quando opta por inovar a cena televisiva com a participação de uma protagonista negra. O que pareceria algo a ser comemorado nas primeiras semanas da novela, vira do avesso, quando a sequência das cenas mostra a inúmeras mulheres no Brasil que o sucesso profissional dessa Helena de nada serve se ela não se mirar “no exemplo daquelas mulheres de Atenas”. No pacote, então, fica reafirmado que é mais importante se dedicar à vida do lar e à vida conjugal. Caso contrário, de que lhe serviriam todos os predicados que adquiriu numa longa trajetória profissional?

Porém, saindo da telinha, me encanta saber que outros movimento permitem que a história do nosso povo, passo a passo, seja escrita e contada de outro jeito. No último sábado, 11/01, em Salvador, um dos blocos afro mais famosos do Brasil, o Ile Aye, realizou a Noite da Beleza Negra elegeu a sua Deusa do Ébano. Havia filhas de Iemanjá, Oxóssi, Oxalá. Eram mulheres lindas que entravam no palco da Senzala do Barro Preto, trajadas como rainhas, a defender sua identidade negra – e eram apresentadas a exemplo da vencedora: “Gisele Santos, filha-de-santo do terreiro Ilê Axé Yá Delmin, localizado em Dias D´Ávila, e consagrada ao orixá Obá. Seu sonho de ser a Deusa do Ébano é motivado pela necessidade de dar exemplo aos seus alunos e alunas negras, fortalecendo sua auto-estima.”

Depois disso, lamento, Manoel Carlos, mas tudo o que posso aqui é parafrasear o velho Chico Buarque, ajustando seu verso pra um outro real possível que contrapõe o racismo global. Então: “mirem-se no exemplo daquelas mulheres do Curuzu”.

Luciana Pinto

Anúncios