RACISMO EXISTE
Prova 18: Não li. Ok, e dai?

Eu e uma amiga estamos sentadas numa mesa de bar. Conversamos. Trilhamos entre trivialidades e, porque não poderia deixar de ser, em algum momento, descambamos nas coisas políticas. Primeiro comentamos sobre a alcunha de “chatas” tantas vezes recebidas por nós ao falarmos nas coisas tais: racismo, discriminação, injustiça social, meninas exploradas, o absurdo de um Domingão do Faustão e suas piadas frequentemente machistas e homofóbicas, etc. e etc. Eu, negra. Ela, lésbica. Nós, mulheres. Ela diz transparentemente que, como mulher branca, jamais saberá o que é ser negra, ela pode ouvir e falar sobre esta experiência, pode ter empatia, mas não, de fato, conhecê-la, ser inteira neste saber. Eu, tampouco, posso compreender em inteireza a experiência saber de ser mulher branca lésbica.

Posso de fato partilhar a minha experiência. Posso simplesmente ouvir e tentar compreender a dela. Existe neste diálogo uma necessidade imensa de certa humildade. Isto é algo surpreendente, quase mágico, senão óbvio. Está marcado no corpo – sexo, cor, cabelos, orientação sexual – a trilha que cada um de nós terá que percorrer ao longo da vida, os embates que precisaremos enfrentar, certo sentido da existência, ancestralidade e a vivência das relações de poder. Em meu estar ser negra posso fazer algumas confissões. É o que temos feito, diligentemente, através dessas crônicas. Posso dizer o que me desconcerta. Quero dizer o que me desconcerta.

Televisão que invade a casa de quase todos os brasileiros, diariamente, com um universo populacional majoritariamente branco, cujos negros quando não estrelas perdidas e solitárias, estão sempre representando papéis de serviçais, Brasil e o velho sonho colonial de alguma forma ainda vivo. Me mostrarem um produto mais barato quando entro em uma loja e ainda não perguntei de fato o preço. Um negro ser xingado de “negro” porque está atrás de um balcão e quem está diante dele acreditar que pode humilhá-lo. Que a palavra “negro” seja uma forma de ofender, um xingamento, isso é algo profundamente desconcertante.

Uma outra amiga branca, que não partilha dessa verdade simples sobre o quão distintas podem ser nossas experiências graças à cor de nossas peles,  entre tantas outras coisas, me disse certa vez achar absurdo a frase “orgulho de ser negro”, afinal não há quem ande por ai levando no peito, “orgulho de ser branco”. Isso sim,  seria “estranho”. São experiências inteiramente distintas. Fomos nós, negras e negros, que precisamos nos erguer e dizer em voz alta que temos prazer em habitar este corpo, a despeito de todos os embates . Esta é uma experiência que nos é cara e única.

Há duas crônicas, nossa unidade especial de tempo, um senhor conhecido meu nos responde a tudo que escrevemos com um lacônico: “Ok, e daí?” Na última, em especial, respondeu: “Não li. Ok, e daí?” Pergunto-me, não ingenuamente, se seu desinteresse ou desencantamento ou cinismo, tem alguma coisa a ver com o fato de ser homem branco, cuja escuta não está disponível para uma experiência inteiramente diversa da sua. Afinal, é custoso se aproximar do que é doloroso, principalmente quando não toca ou só muito distantemente toca a própria pele, é chato até. Afinal, é isso. Realidade constatada. Ok, e daí?

Keu Apoema

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