RACISMO EXISTE
Prova 17: E o seu racismo, é de criação?”

Minha amiga Keu, quando conta histórias, sempre enfatiza que nos contos de fadas o Três é número que desempata, que tira da inércia, que fecha ciclos, resolve, que transforma… Enfim, um número mágico.

Quisera fosse assim também nas coisas não tão doces do cotidiano. Quisera a cada Três dores, Três tristezas, Três mágoas, tudo se transformasse, se diluísse, se convertesse.

Três, na tentativa de cumprir sua função mágica, se esforça aqui pra trasmutar sentimentos em falas e falas em letras. Transmutar sentimentos não mais toleráveis diante da inércia racista promovida pelo preconceito e pela discriminação.

Nas histórias aqui não há mágica. Mas, em todo o caso, são Três: três mães, três  diálogos, Três praçastrês crianças, três circunstâncias – Três resultados em que – qualquer coincidência não são meras semelhanças.

Ana Magnólia ao voltar da escola passava com sua mãe por uma praça, quando uma transeunte foi tomada por uma necessidade incontrolável de abordar as duas, e assim, exclamou sem muito pudor:

– É sua filha?

– Sim, é.

– Engraçado, filha de negro não tem pai, né?

Foi tão alto o grito de Domenica face à abordagem feita a sua filha que nem consigo pontuar as expressões da sua reação. Grito, aliás, calado por outra situação que se repetia perto dali:

Antonio foi passear com a babá em outra pracinha da cidade. A interação entre babás e crianças era algo natural e corriqueiro. Como talvez fosse mais corriqueiro que imaginamos a pérola de outra mulher que acompanhava uma criança branca: “Nossa, ele tem cara de pobre, e a minha filha que é pobre e tem cara de rica”

A babá, sem saber muito como reagir, contou a Mariana, o ocorrido. Talvez na espera de uma reação mais enérgica da mãe de Antonio, talvez na expectativa de ensinamentos sobre como ela deveria se portar. O que fazer? Diante da tentativa indignada de buscar apoio, gritou aos quatro cantos da fria incompreensão virtual. De feedback via orkut, mais de 1200 respostas em uma comunidade. Todavia, a despeito dos apoios bem mais tímidos, grande parte eram pérolas como: “Então, Mariana, se estresse, crie um câncer. Porque o preconceito não vai acabar como num passe de mágica, infelizmente!”

Na Terceira, uma praça de alimentação, Carla, já adolescente, almoçava com sua mãe, quando uma mulher na “simpática” intenção de interagir lança a pérola:

– é você quem cria?

– Não. Ela é minha filha mesmo!

– Ah, é porque eu percebi que você estava dando muito cabimento a essa menina.

Silvia tratou logo de ensinar à filha o que significava e de onde vinha a lógica de – “filha de criação”. Afinal, em pouco tempo a própria adolescente precisaria se defender sozinha. Assim, era a hora de juntar argumentos, colher as armas, saber dar limites.

Se quisesse, ficaria horas justificando essas Três situações. Escreveria páginas sobre histórias ligadas à reprodução do racismo no Brasil. Todavia, a crença de que essas coisas estão no inconsciente coletivo da nossa sociedade ainda é pouco para desacreditar que tais provocações, no mínimo, inquietem a você que está lendo.

Como posto, então, lamentavelmente o Três não é tão mágico aqui. Não transforma automaticamente. Mas talvez porque as Três histórias trazidas estejam longe de serem contos de fadas e menos ainda de ter um final feliz. Talvez, tanto pior, representem a síntese de 30 exemplos diários, 300 fatos por mês, 3000 crimes por ano.

Dessa forma, dos Três lamentos lançados, dos três gritos abafados, me valho apenas do sábio poeta, Manoel de Barros que aposta na vida – apesar de – e  exclama que é importante  insistir. Do alto do seu Livro das Ignorãças: – “Repetir, repetir, até ficar diferente.”

Luciana Pinto

Anúncios