OU TUDO QUE NASCE, CRESCE E MORRE

Em meio a um minuto de respiro diante da correria já naturalizada do fim do ano, me deparei com uma reflexão que achei valer a pena partilhar aqui. Passamos o ano inteiro dizendo que “racismo existe” e provando isso por “A + B”, a partir do registro de atitudes sutis ou de situações bizarras que presenciamos no cotidiano soteropolitano, ou em outros lugares do país.

Reações e jeitos de lutar proporcionais as dores do racismo que presenciamos foram partilhadas o tempo todo: carta para a imobiliária Borja, denúncia do caso Vânia, O pedido de socorro – nem sempre acolhido de Mariana – nas comunidades do orkut, o grito indignado de Domênica – com a pérola: “filho de negro não tem pai”, o Cabelaço na frente do Ondina Apart, foram só algumas estratégias que nós e as tantas mulheres buscamos para dar conta desse grito.

Talvez na ansiedade por grandes respostas, esqueçamos de olhar as pequenas – aquelas que também nos mostram que – na mesma proporção que racismo existe é possível e necessário acreditar na sua desconstrução.

Dona Sulamita contava que nos espaços religiosos que fizeram parte de sua formação e de sua história de vida, às freiras negras era relegadas as árduas tarefas de lavar, passar, cozinhar, e quando muito cozer para as freiras brancas, a quem era facultada a possibilidade de estudar na universidade e até ascender a cargos de poder nas congregações.

E nós, filhos, primos, sobrinhos que escutávamos as ditas histórias com frequencia, ficávamos indignados com aquilo. Mas, ainda assim, entre o narrar um fato e outro, ela mesma vazava expressões de negação da presença negra, expressões essas  já arraigadas na cultura da maioria dos brasileiros: “- ah, fulaninha!? Ela  não é negra, não, minha filha, ela é morena. Você fala assim porque ela tem ‘aquele’ cabelo”. Já sobre um amigo de cabelos crespos, interjeitava: “não sei como ele agüenta usar aquele cabelo. Parece sujo!”

Pois bem, a necessidade “corrigi-la” – sim, não era sensibilizá-la, era corrigi-la, esteve gritante na nossa relação por muitos anos. Como se fosse – do alto dos seus 80 anos –  natural para ela reconhecer em tantas pessoas mestiças com que convivia as identidades negras que afloravam. Não era.

E foi quando num entardecer de verão, ao trocarmos figurinhas em um rápido encontro de nossas andanças pelo mundo, ela abriu uma revista com a foto da Taís Araújo e disse-me: “como é linda essa negra”. E isso foi tudo. Não era a frase. Mas o tom. Foi o tom de voz – forte, maduro e de reconhecimento – que me fez percebê-la agora como capaz de enxergar uma pessoa negra sem disfarces embranquecedores e sem espanto com uma beleza, antes de tudo humana. E isso me dá esperanças de que um dia escrevamos uma série – “racismo existiu”, que sirva apenas para mostrar aos nossos filhos e filhas como foi o Brasil um dia e de quanta luta foi necessária para que as coisas se transformassem.

Luciana Pinto

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