RACISMO EXISTE
Prova 15: Constatação Óbvia ou é preferível Não ver.

Quando se chega à Bahia, ou quando se pensa em aqui, mesmo estando do lado de fora, não é possível negar que há uma imagem do estado, e principalmente da capital, dotada de um punhado de folclore a respeito da presença e da forma de viver da população negra. Imagem essa, que ainda por cima é construída sob a égide de uma euforia supostamente eterna que, não raro, contagiaria também seus visitantes.
Do lugar de não baiana, sempre tive sérias dúvidas sobre essa tal alegria. É fato que a identidade negra na Bahia é vivida, sim, de forma mais intensa, mais explícita do que na maioria dos estados brasileiros. Mas mesmo assim, e para espanto de alguns, é bom que se diga também que essa força identitária não intimida que com a mesma força, práticas sutis ou grandes atos de racismo e discriminação aconteçam diariamente debaixo dos nossos narizes.

É importante saber ainda que na contramão da tal euforia carnavalesca, e das baianas de acarajé sorridentes, pintada nas telas de TV o ano todo, casos como o que ocorreu na Imobiliária Borja, a agressão sofrida por Isabel no Ondina Apart, e a violência pratica contra Cláudio e Vânia na sua própria casa, são situações que acontecem por aí, com mais freqüência do que se imagina e, há que se saber, não só com negros chamados – retintos ou aqueles/as que usam dreds ou reverenciam de outra forma os referenciais afro-brasileiros.

Sobre isso, ao mesmo tempo em que as redes de militância contra o racismo são ágeis em se manifestar, também é sabido que nem todo mundo consegue exigir direito ou reparação, ou mesmo exercitar a superação emocional colocando a “boca no mundo” ainda que pra ver a dor partilhada, para além da busca de alguma justiça que seja.
E aí, diante desse confronto alegria X dor me chega alguém e pergunta “mas cadê os negros da Bahia?”

jovem-negro

Ora, pensando bem, o povo que vai pro Grito dos Excluídos, pra o dia de luta contra o racismo, pra as comemorações do dia 02 de julho, o povo que se vê esmagado pela opressão das cordas e ofuscado pelos tais abadás no carnaval– esse povo não circula a toda hora e a todo instante nos bairros de classe média alta de Salvador, nos Shoppings, nos cinemas e restaurantes caros, teatros em outros espaços de consumo elitista da capital baiana, não diferindo, nesse sentido, portanto, de outras capitais do país.
Longe de querer discutir aqui a relação raça e classe, embora entenda sua pertinência, existem duas questões nessa procura pelos “negros e negras baianas”, que me fazem pensar mais cuidadosamente sobre – onde está e de quem é o “problema” de “não se ver” tantos negros por aqui!

A mim, me parece que o fato de a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio – PNAD ter registrado em 2005 um percentual de 78% de população se autodenominando negra do estado da Bahia, ainda não é suficiente para aprimorar a percepção da sociedade sobre o que está por trás e pela frente desse auto-reconhecimento.

Ora, se não nasceram tantas crianças negras, que justifiquem o aumento dessa parcela da população, o que pode se concluir é que, nos últimos tempos, mais pessoas, como diria Neuza Souza Santos – “tornaram-se negras”, enquanto uma identidade também política, construída para além da mestiçagem e que supera o fenótipo, mas que busca suas forças num chamado interno, gradual, pessoal e intransferível de identificação, nada instantâneo ou tão fácil assim de explicar.

Talvez a real dificuldade esteja, mais uma vez, nos olhos de quem vê. Dificuldade de dizer a si próprio: “eu me relaciono com pessoas negras”. Sob o argumento altruísta de que: “somos todos iguais e que a cor da pele é o que menos importa”.

Luciana Pinto

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