RACISMO EXISTE
Prova 14:  E houve festa na senzala – ou hoje é festa lá no meu Ap.

Ao ler o livro da mineira Ana Maria Guimarães, “Um Defeito de Cor”, lançado em 2006, me deparei com um romance histórico de narrativa comprometida com a trajetória do negro seqüestrado de África e escravizado no Brasil, através da saga da sua protagonista – Kenhide.

Longe de querer aqui fazer uma resenha da obra, pus-me a pensar, durante a leitura, em quantas das situações de racismo e violência legitimadas no Brasil Império, pela condição de propriedade de negros pelos brancos, são reproduzidas na sociedade atual. É por essa lógica de pensamento que me peguei particularmente impressionada com a descrição das festas das senzalas, que foram primorosamente detalhadas pela autora.

Outrossim, também já devemos ter lido nos livros didáticos que trazem a mal contada história do Brasil, que naquele tempo, apesar dos pesares, era sim, possível que em alguma medida os rituais ou festas que referenciavam o que restou das tradições e da alegria do nosso povo fossem vividos por negros e negras escravizados.

Todavia, as festas na senzala, como não podiam deixar de ser, eram recheadas de regras rigorosas ditadas pelos senhores brancos e controlada pelo olhar atento dos seus feitores e capatazes.make-a-joyful-noise-hand-drums-darlene-keeffe

Havia regras quanto ao tempo de duração, ao volume do toque dos instrumentos improvisados e tantas outras normas quantas fossem necessárias para que se importunasse a tranqüilidade do sono dos senhores brancos ou mesmo não prejudicassem a produção das fazendas no dia seguinte.

Regras essas, cujo descumprimento significaria invariavelmente castigos perversos e dores incuráveis no corpo e, não raro, também na alma.

E comparando essa passagem histórica para o contexto dos dias atuais, quem não se lembra do divulgado caso de racismo e violência ocorrido com a família da Jornalista Vânia Lima, em Salvador, no final do primeiro semestre de 2009?

Na ocasião, Vânia e seu companheiro Cláudio, ao darem uma festa em seu apartamento, foram surpreendidos pelas violentas “chibatadas” de um “capataz” que provavelmente agiu  sob orientação da intolerância do seu “senhor”, um vizinho que chamou a polícia por supor que a festa descumpriria as “ordens da casa grande” Ou que precisasse destilar sobre alguém as auguras racistas de toda uma sociedade.

Longe de querer detalhar aqui o ocorrido com Vânia[1], é impossível não perceber diante dessa e de outras situações, que a assinatura de uma lei de libertação dos escravos em 1888, ao abrir as portas das senzalas, esteve longe de garantir de fato a liberdade ao povo negro, mas, em uma infeliz contrapartida, favoreceu a rearrumação das práticas racistas na atual sociedade brasileira. Enfeitando-as com eufemismos e dotando-as de rigores e de perversidades nem sempre sutis.

A diferença, porém, é que, hoje em dia, a despeito dos aparelhos de defesa e reparação de direitos do estado cada vez mais nos conduzirem à desistência e a descrebidibilidade, é possível gritar na mesma proporção em que se tentou viver a alegria ou exercer os direitos cerceados.

É possível urrar a dor pela violência sofrida, fazer saber pelo vento que os limites burocráticos não nos acorrentam e não se configuram como outro castigo, ainda que testem nossa capacidade de resistir e seguir lutando.

Estimula-nos, por outro lado, saber que é possível usar da persistência, quiçá, herança negra para minimizar, e porque não extinguir esse tipo de situação. Instiga-nos a consciência do poder usar essa força, sem confundi-la com o estigma de que ela reside na capacidade de suportar a dor! Porque essa força está posta sim, mas preferimos crer que ela se evidencia na disposição para a luta da desconstrução cotidiana de preconceitos e atitudes discriminatórias.

Luciana Pinto


[1] Carta publicada no blog em 19/08/2009

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