RACISMO EXISTE
Prova 12: Lentes novas pra enxergar as cores do mundo

Ele, branco, alemão, meia idade, chegou ao Brasil para trabalhar por tempo indeterminado. Ela, na casa dos vinte e pouco, negra, solteira, linda! Encontravam-se sempre em reuniões, diversas e, não raro, precisavam debater os temas políticos da labuta comum. Era só. Na verdade, seria só, não fora o fato de haver certo deslumbramento do cidadão pela beleza da moça. Beleza, entretanto, negada, substituída por um sinônimo mais “elaborado”:

– “É uma moça exótica.”

Na roda os panos quentes da submissão terceiromundista aos padrões europeus. Mas não dava. Ao final, ela sabia muito bem os limites racistas que estavam postos no tal “exotismo”.

Uma opção “b” para que a característica do que é exótico não precise ser usadas para ofuscar a beleza de ninguém é algo mais freqüente e já tratado aqui – a morenização. Esta prática  fica evidente em outra história:  era uma conhecida que se esforçava para ensinar a sua filha que ela é negra sim, e que não há nada de errado nisso, e que ela, desde criança, não deve então se deixar discriminar ou se abater por práticas racistas.

Até que um dia “xingada” de negra na escola, a direção insiste em tratar o problema da forma mais “pedagógica” possível.

– “Vamos repreender o garotinho que ‘ofendeu’ a menina”. 

– “Nunca mais a chame  de negra, ouviu? ela é M O R E N A, Você a está ofendendo e isso é muito feio.”

Nem preciso dizer que a mãe cuidou de dialogar com a diretora para que no futuro sua filha não passasse a ser vista como uma pessoa “exótica”.lentes_13a

Mas assim como as lentes, às vezes distorcem, em outros casos evidenciam – isso é visível na história de Aninha e Carla. Amigas de infância, ela se reencontraram  15 anos depois, adultas , cheias de histórias, conquistas , e com estilos de vida completamente antagônicos.  Contradições responsáveis por hiatos no diálogo vazio que se estabeleceu naquela noite, até que uma delas olhou para a outra e perguntou:

“- Você escureceu, não foi?”

A amiga poderia bem ter respondido “– é que fui à praia esse fim de semana.”

E aí mantinham tacitamente o acordo do clareamento artificial. Não era possível. Só lhe restava devolver o comentário:

 “- fico feliz que que você agora está enxergando tudo direitinho.

E assim, pra cada jeito míope de olhar, uma lente específica que ora corrige, ora ameniza, ora distorce e provoca em relação às formas não tão subliminares de implantar o vírus racista na sociedade. Em meio a isso tudo, talvez o que valha então, seja a gente se saber de cor.

Luciana Pinto

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