Com dois copos de farinha se faz um cuscuz pra duas pessoas. Com aproximadamente quatro colheres de sopa pode-se dividir o café com mais duas ou três. Demoro quinze minutos para atravessar três quarteirões, sem trânsito. A previsibilidade segue aí a rotina do cálculo.

 Calcular supõe medir, comparar termos, equivaler proporções. Há todo um aparato de cálculo que serve de suporte, meio técnico para afirmar a ação. Há medidas que são adotadas como referências para que se possa variar escalas, avançar em análises e ações, tomar a questão a sério, trabalhar seriamente nas definições do contorno de certas questões. Enfim, dedicar uma vida, uma história ao tratamento de uma questão.

 Como deve parecer estranho, ou ainda, pouco evidente, por uma espécie de decalque, trata-se aqui de uma breve menção ao cálculo como pressuposto da ação social. Com algum esforço, faço o exercício de deixar em suspenso o fato de que teorias baseadas nesta premissa me são pouco palatáveis. Inevitável talvez seja o efeito deste esquema sobre uma dinâmica, uma performance, uma ação iniciada, “em cuja ausência haveria nada ao invés de alguma coisa”…

 Estas últimas palavras ressoam… parecem pouco autênticas, sem marca e sem questão, como se a

q u a l q u e r  momento pudesse acontecer… q u a l q u e r   c o i s a. . . E pode ser que sim, tomando como naturalidade o acaso. Mas pode-se compreender o sentido da opinião pública como um evento espontâneo?

 Enquanto a política compreende  em algum grau a sociabilidade da vida íntima, e nos debatemos com as equivalências entre o social e o individual, um incômodo transforma-se numa questão: Qual seria o motivo pelo qual determinadas ações sociais encontram “paredões” sucessivos de questionamentos, exigências de precisão, desconfianças, ou até mesmo algumas paranóias generalizadas num pouco sustentável medo?

 Ações afirmativas como cotas raciais nas Universidades são, atualmente, umas das mais questionadas intervenções sociais. Embora emancipadas de discursos de base assistencial como a legenda das   políticas de reparação, e avançadas do ponto de vista da constituição de medidas, referências, dados, análises, explicitação dos fatos, a questão da entrada na Universidade através de uma proporcionalidade mais justa e igualitária parece às vezes uma questão intransponível. Ainda que aí se fale a língua, se jogue o jogo da ciência: Da mesma forma que na extração de uma amostra de uma população procede-se à estratificação com proporcionalidade de diferentes grupos, para garantir a fidedignidade, validade estatística, em quais bases nos firmamos para garantir a universalidade na Universidade?

 Justificativas, prazos, contra-argumentos e a transferência do problema para outros níveis de escolarização, a invenção de formas de dar as costas, de eternizar-se no mármore. Numa proporcionalidade equivalente também não são visíveis, ou pouco facilitado é o acesso ao avanço de pesquisas e elaboração de medidas para o tratamento coletivo de realidades como o preconceito e a discriminação, danos sentidos por gerações inteiras. Nesse terreno, o cálculo e a medida perdem a precisão, portanto é inestimável e inafiançável o estrago.

 Acontece que as medidas imprecisas de reparação não podem suprir o aparato de produção de avarias, a menos que se possa regular, com freqüência, este funcionamento. Contemplar as necessidades diferenciais, garantir equidade na distribuição dos diversos grupos sociais na apropriação do que é público, entre outras formas, são ou não partes, espectros de formação do processo de universalização? Sem estas medidas, a universalização parece transformar-se numa categoria abstrata e incompreensível porque vazia, logo insustentável.

Daniela Martins 

 

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