RACISMO EXISTE
Prova 11: Identidade disciplinada em embalagens peroladas

Não raro as formas como a mídia e o mercado tratam a questão racial vem sendo pautadas nos nossos textos. A opção pelo “invisível” cotidiano, como já devemos ter dito antes, vem do interesse em desvelar o subjetivo, desdobrar o subtexto, vem da curiosidade do que está por trás das maquiagens bem feitas e das linguagens pouco precisas.

Pensando nisso, lembrei que um belo dia, não registro bem quando, andando pelos corredores de um supermercado, percebi mais embalagens coloridas, novos produtos, novas formas, novas intenções.

Eram os efeitos de uma valorosa descoberta: a população negra desse país, se não está ascendendo financeiramente, ao menos está valorizando um consumo digamos assim – personalizado.

Então, alguém teria que tirar proveito disso! Eram xampus, sabonetes, desodorantes, cremes mil para cabelos, para a pele, enfim. Tudo meticulosamente direcionado para nós de tez escura.

Eu não sei se isso significa uma conquista, do ponto de vista do reconhecimento de que pode haver particularidades nessas características, que demandam produtos próprios. Mas não me furto ao pensamento provocativo de que nunca vi hidratante para a pele branca, xampu para cabelos ruivos ou encrespador de lisos.

Bem, é tanta informação, que já não tenho nenhuma certeza se essas mal traçadas linhas são frutos de um radar de patrulhamento alterado, ou se de fato a indústria cosmética ainda não aprendeu sequer a dar um trato adequado às terminologias que utiliza em parte dos seus produtos.

E é aí que quero chegar. Voltando ao supermercado. Entre a sedução das embalagens, as fórmulas e a aplicação para os diversos tipos de cabelo me deparei com uma sequência de expressões digamos assim “exóticas” em embalagens peroladas e com rótulos estranhsedaos: disciplinador de cabelos; anti-frizz, domador de cachos.

Na minha infância, ao menos se chamava direto: cabelo pixaim, cabelo de mola, cabelo de Bombril. Isso talvez não fosse bonito, mas pelo menos era escrachado. Não havia dúvidas sedutoras e consumistas que mascarassem tanto assim o preconceito em nome do lucro.

O apelo do consumo está posto. Parece que pouco importa do que muita gente ainda abre mão para ter esses tais cachos domados, disfarçando uma necessidade de aceitação que nem sempre vem de forma natural e que precisa, sim, da artificialidade dos crespos disciplinados para ser acolhida.

Sem panos quentes, pra mim, o fabricante do domador de cachos é o mesmo que faz o nerd branco e franzino massacrar o negro boxeador no comercial da Mastercard.

Mas de uma coisa estou certa, esses textos aqui, às vezes exacerbados nas tintas da indignação, às vezes preocupados com sutilezas cotidianas, tentam, tão somente, contribuir com a chegada de um dia em que os leões não precisem ser domados na sua natureza mais veemente, tendo sua juba alisada pela lógica opressora posta.

Luciana Pinto.

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