RACISMO EXISTE
Prova número 09 – Meninas Cor de Ameixa

Desde criança, a pequena Betina se via negra. E não havia nada demais nisso. Porém, todos em casa lhe tinham na conta de moreninha clara, o que ela, definitivamente, não entendia.
Afinal, olhava para o pai: negro, olhava para os tios: negros. Mas a família insistia em tratá-la por “apelidos carinhosos”: cor de jambo, cor de jaboticaba, cor de ameixa, cor de canela!
– “Ops! Mas cor de ameixa não é preto, mãe?”
– É uma cor mais bonita, filha, um tom avermelhado. Não fique falando estas “coisas de preto” por aí!

Seus presentes eram sempre bonecas loiras, ruivas, com cabelos lisos. Ah! Que confusão! Um dia pediu:
– Pai, me dá uma boneca negra ! Bem, o tom de pele mais escura não foi encontrado na época. Mas os cabelos castanhos estavam lá.

Porém, só isso não bastou. Assim os cabelos da boneca foram lavados e isso fez com que os fios parecessem crespos. E as coisas já melhoraram um pouco.

“- Quem é este da foto?”

bonecas

Perguntou-lhe uma tia idosa, referindo-se a um rapaz negro de sorriso largo.
” – É meu amigo da escola, tia!”
” – Hum, ele é simpático, exótico, tem dentes bonitos! São naturais?
Bem, fosse lá porque sua tia lhe perguntara aquilo, Betina, que na época já se acercava dos 12 anos, deteve-se em explicar que na formação do povo brasileiro vinha dos europeus o hábito de asseios mais escassos e daí também poder ser deles a característica de dentes estragados e a necessidade de próteses ou coisas do tipo.

Quando tinha de ir a uma formatura ou a um casamento era de muito sofrimento. Afinal, tinha de esticar o cabelo e passar corretivo para afilar o nariz.

Porém, à medida que crescia, Betina conhecia pessoas que também sofriam por não serem percebidas com naturalidade. Em compensação, descobriu outros estilos de se produzir.
As pessoas ainda mencionam suas “roupas de negra”, seu cabelo volumoso e crespo, ainda falam de seus amigos com dreds e black power.

Paciência! Com o tempo, Betina aprendeu a arte de devolver com perguntas os comentários alheios. Foi assim que descobriu que às vezes, uma frase tinha mais efeito do que muitas manifestações agressivas.
Hoje ela sabe que vai ter de usar isso sempre, por si, por seus amigos, pelas pessoas que não conseguem ainda provocar a reflexão e por aquelas que nem sequer refletiram.
Mas sabe que mesmo sendo uma formiguinha, tem seu próprio jeito de fazer o mundo melhorar. E Só por isso, já segue feliz com sua alma combinando com seu corpo.
E você, o que acha disso?

Luciana Pinto

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