– Um respiro nas provas do racismo –

(sem imagem – inimaginável)

Na hora de escrever a crônica, há sempre uma inquietação: será possível trazer leveza e quiçá certa doçura para um tema que é objeto de tanta dor?

Quem sabe, um dia contemos histórias de situações e pessoas que naturalmente conquistaram respeito, impuseram limites, cresceram em cidadania e dignidade pela sua capacidade de se posicionar de forma diferente diante de uma sociedade tão opressora. Sim, chegaremos lá!

Enquanto essas vitórias não são incorporadas ao nosso cotidiano, o que me traz aqui é uma realidade mais dura: um breve mapeamento da desmotivação de uma cidadã para encabeçar essa luta pela reparação de direitos no plano individual.

Por exemplo: no caso da moça que foi discriminada na imobiliária, na Bahia, foram: 82 e-mails de repúdio e solidariedade ao ocorrido, incontáveis diálogos com advogados/as, duas idas ao PROCOM, dois contatos com o Ministério Público Estadual, duas entrevistas para sites na Internet e quatro idas à delegacia.

Foram quatro idas para que finalmente se concluísse depois de várias consultas aos instrumentos legais pertinentes, que o que ocorrera foi – “apenas” – uma alteração de voz por parte do cidadão da imobiliária. E então, uma orientação “preciosa” foi dada:

“– vá ao juizado de pequenas causas e faça lá a exigência de reparação monetária, que é o que se quer, não é?”

“- Não, senhora, o que se quer é respeito. O que se quer é tratamento digno, não por ser consumidora, mas por ser gente.

Ao que sei da moça, não se trata de uma adepta da cidadania do consumo. Conceito que, de forma grosseira, pode ser interpretado como uma vinculação capitalista dos direitos às cifras de uma conta bancária.

Nessa lógica, talvez haja sim outra solução: é a distinta cidadã ir se desculpar com o feliz proprietário da imobiliária, por não ter sido compreensiva o suficiente com a ressaca que lhe fizera acordar um pouco mal humorado, exatamente naquele dia de fim de verão.

Anúncios