RACISMO EXISTE
Prova número 06: Educação ou Maquiagem?

Práticas racistas, não raro, começam no seio familiar e são repassadas de pais para filhos/as, mesmo que às vezes involuntariamente. Porém, mesmo que muitas crianças e adolescentes vivenciem seus próprios processos e construam seus pontos de vista para além desses “aprendizados”, essas marcas nem sempre são apagadas facilmente.

Uma amiga outro dia contou que, quando criança, seu pai lhe lembrava com carinho e autoridade: “- Isabel: preste atenção no que você faz. Pois você é negra.” Ao mesmo tempo em que parecia duro, para ela era a única forma de seu pai prepará-la para as discriminações que, fatalmente viria a sofrer.

Já a pequena Betina, aos nove anos, fazia natação na escola. Certo dia, a aula acabou mais cedo e o professor falou as palavras mágicas: “-banho livre.” Tudo ia bem, até que um garoto queria saltar exatamente no lugar onde ela brincava. “- Poxa, uma piscina tão grande, não dava para saltar de outro lugar?” Pensava, até disposta a sair. Mas uma atitude fez a diferença para acirrar a “implicância”.

– Saia daí sua filha de negros.

O tom agressivo do garoto não deixava dúvidas e, apesar do estranhamento ao adjetivo, uma certeza estava postacrianças negras: havia que se defender. Entretanto, o ímpeto da ferida, mesmo não se sabendo negra gerou outra agressão: “- Não vou sair não, sua baleia branca”.

Aí estava eu, quieta em casa, quando abro o e-mail e vejo uma mensagem de uma amiga querida. No título, apenas: “Lu, olha isso… acho que vai te interessar.” Era uma carta indignada do Ruy, um pai (branco) que adotou três crianças negras e agora, sentia “na pele” a dor da discriminação a que seus filhos estavam expostos.[1]

Li tudo me contorcendo. Desde então sabia que registraria algo sobre aquele texto e os mais de 100 comentários que lhe sucederam. Dentre tantos aspectos que eram trazidos àquela discussão, uma fala daquele pai, em particular, me chamou a atenção:

“Desisti? Não! Apenas decidi criar meus filhos para saberem driblar (grifo meu) tais situações. Estudem mais, sejam os melhores da classe, comportem-se mais que seus colegas, (…) E se, no futuro, nosso país não tiver passado por uma mudança radical, que lhes permita viver em paz, que tenham estudado o bastante para encontrar uma vida melhor em qualquer outro lugar do mundo.

O ensinamento, mais uma vez, não se confundia com: exija respeito – INCLUSIVE E PRINCIPALMENTE POR SUA COR. Cobre DIREITOS, imponhas LIMITES. Todavia, soava mais como quem insufla junto à sociedade as velhas “contemporizações racistas”: “é negro, mas é doutor”, “é uma negrinha linda!”, “é escurinho, mas é um excelente aluno”.

Não sei como a Isabel se saiu com o que aprendeu com seu pai. Não tive notícias de como a Betina consolida a cada dia sua identidade e, muito menos, pretendo prever como as filhas do Ruy se portarão no futuro.

Mas espero, sinceramente, que, “em tempos” (idos) de Michael Jackson, ninguém fuja para uma “Nerverland” qualquer, na ilusão de viver isolado/a das mazelas do mundo.

Luciana Pinto

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[1] http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/06/23/o-preconceito-contra-os-filhos/

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