RACISMO EXISTE
Pausa para Necessárias Respostas

Uma chica argentina, amiga minha, me perguntou por que, sempre que falamos em discriminação, invariavelmente, nos referimos aos negros, como se não houvesse outros racismos. Ela mesma me lembra as reações estranhas e “feias” já vividas sempre que declara, em terras brasileiras, sua nacionalidade. Ai, tantas são as respostas possíveis…

Principio o percurso lembrando que existem sim muitas vozes contra a xenofobia, a intolerância religiosa, o sexismo, a homofobia, o machismo e várias outras pragas de mesma natureza. O nó é que são ainda poucas diante da imensidão do desafio e são poucos os dispostos a ouvi-las.

Estavam diante da TV, domingo, Faustão, aquela coisa, momento familiar patrocinado pela Rede Globo. Desfilavam na tela humoristas e as velhas piadas, versando sempre em torno do tema mulher, gays, com raras variações. Ela se sentava e se levantava do sofá indignada com toda a cena: as piadas sexistas e racistas e os risos que se espalhavam pela sala. Protestou. E em resposta ouviu: “só você fala dessas coisas!”

De repente aquela voz era um germe inoportuno lembrando coisas que uma minoria suporta escutar, coisMae_preta_de_Segallas, no entanto, faladas e discutidas por muitos, mas certamente, eles elas nós não estamos na Rede Globo nem na Veja pouco no cotidiano dos bares das salas de aulas das conversas banais porém importantes entre pais e filhos, amigos, encontros de finais de tarde, inícios e fins de estações.

Sigo meu percurso confirmando que este espaço, o espaço desta proposta tem se dedicado sim ao racismo contra negros. Porque somos negras. Vivemos em Salvador, a maior cidade negra fora da África, somos filhas de um país de maioria negra e que teme, vigorosamente, a própria ancestralidade. O cabelo do negro é ruim, o nariz é chato, sua religião é coisa do diabo, seu lugar é a cozinha ou a cama. Não estou falando de chavões, mas de vivências cotidianas, que fervilham em nós e nos entornos de nossas almas e de nossos corpos.

Três crianças brincando de casinha definem assim seus papéis: a branquelinha é a dona da casa, aquela de traços mais indígenas é a amiga que visita e a negra é a empregada doméstica. Uma jovem militante do movimento negro caminha pela Avenida 7 e, de repente, é abordada por um cidadão do Sul querendo saber quanto custa o final de semana. A uma mulher negra que transita nos espaços normalmente da elite é dito: “mas por que se preocupar com isso? Você não é negra!”.

São estas vivências próximas e recentes, contadas a mim por pessoas próximas ou presenciadas por meus olhos ou por minha pele. Espaços além podem e devem ser criados. Outras vozes devem ser buscadas e escutadas. Assistir Faustão deveria ser considerado pecado máximo, precisamos começar a contar e a ouvir outras histórias: aquelas sobre os muitos amores e viveres possíveis.

Sabe, dona moça, é legítimo seu constrangimento diante de uma piada ouvida entre aqui e acolá por ser argentina, mesmo sendo amarilla. Daí, acredito, é capaz de entender o que crianças, homens e mulheres negros vivem cotidianamente entre falas visíveis e gestos disfarçados. Às vezes, acontece de ser devastador…

Findo este meu percurso. Por fim enfim de fato, escrevo sobre estas vivências porque neste momento é delas que eu desejo falar sem mais tardar sem meias-voltas.

Keu Apoema

* Pintura: Mãe Preta de Lasar Segall

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