RACISMO EXISTE
Prova número 05: “elogio” em preta e branca

Era um grupo de mulheres, lindas, empoderadas e vindas de mundos, indiscutivelmente, diferentes.

Papo animado. Em discussão – o universo feminino, na expressão da palavra.

Certa euforia no ar, fruto de alguma polêmica lançada na roda. De repente, burburinhos e conversas paralelas tomaram conta do ambiente.

Em meio àquela empolgação, alguém se lembrou de uma experiência única, que quiçá até traria respostas a tantas inquietações!

Nem pergunte o tema da discussão. O fato foi que se instaurou naquela mulher uma ansiedade por partilhar sua vivência! Empenhada em chamar a atenção do grupo, se dirigiu particularmente  a uma colega que falava mais alto um pouco!

– Presta atenção aí, ô, Marilyn Moroe tostada.

A moça, com vestido de malha rodado, decote leve e seus cabelos volumosos, parou atônita.

– O que?

Algumas pessoas do grupo, não hesitavam em repetir em risos:marylin

“Marilyn Moroe tostada!”

Foi o suficiente para se esquecer a experiência a ser partilhada e se iniciar um bate-boca acalorado.

Para a parte afetada a pequena notável não conseguiria, nem com todas as químicas, o crespo leve e natural daquele cabelo volumoso. E não haveria bronzeador que desse à musa de Kennedy aquele tom de pele!

Dando-se conta da “gafe”, a cidadã, desconsertada, tentava se retratar e cada vez mais piorava a situação:

– Eu só queria mencionar sua sensualidade! Afinal, não é qualquer uma que canta Happy Birthday to you para o Presidente da República!

Ai, ai, tantas artistas sensuais a circular por aí para ser mote daquela comparação infeliz! Naomi Cambpell, Taís Araújo, Halle Berry, Camila Pitanga.

O pedido de desculpas veio no espaço privado, num cantinho de parede, em tom de voz baixo, quase de quem cumpre uma obrigação social.

Dias depois, o assunto veio à baila novamente. Não podia ser diferente se não se esgotara e seguia em abordagens aqui e acolá pelas integrantes daquele grupo.

Outro lamento, enfim. Dessa vez – em público. E, claro, mais justificativas:

– Em minha casa “tostada” é só um apelido carinhoso.

– O problema é que o mundo não é sua casa! Porque se a referência pessoal é a que vale, aprendi no seio familiar que tostada é carne que vai pro lixo porque assou demais, é a pessoa que perdeu as contas no sol e não se brozeou, se queimou, enfim, tostado é o que não se aproveita!

Com mote para tantas interpretações, era impossível que o tom desse adjetivo fosse interpretado como um conceito carinhoso da intimidade familiar, extensivo a qualquer pessoa.

Bem, o fato é que tostada não dava! Afinal, não se brinca com as identidades alheias, principalmente porque nunca se sabe o que custou construí-las. Mesmo que quem discrimine nunca queira ofender e tudo seja apenas uma brincadeira “sem malícia”.

Luciana Pinto

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