RACISMO EXISTE
Prova número 03 – Percentual de Melanina

O casal de amigos, ambos com trajetória militante reconhecida, conversavam na mesa do bar. A empolgação do papo me obrigou, da mesa lateral, a dedicar um pouco de atenção àquela cena.
– Olha você! Um negão lindo, bem sucedido, com consciência da sua identidade racial, mas na hora de “honrar” a sua raça, a sua cor, deixa tanto a desejar. Porque não se envolve com mulheres verdadeiramente negras?
Aí comecei a me remexer na cadeira, talvez na busca por uma resposta sobre o que significaria o – “v e r d a d e i r a m e n t e”. Enquanto isso, ela continuava:
– Você só se envolve com mulheres mais claras. Umas a gente até pode chamar de “negras”, porém temos dereconhecer que são meio fracas, né! Com pouca melanina. E pior, que muitas vezes nem sequer tem a identidade definida. Ao contrário de nós negronas, rastas, trançadas, Black Power com roupas afro e que vão ao terreiro de Candomblé!mulheres
Gente, mas aquele tom de quem grita por igualdade não deveria estar preocupado com outra luta? E onde estaria o discurso de que identidade racial é muito mais que cor de pele. É construção ideológica, é identificação sócio-cultural e tantas outras coisas?
– Lembre da Adriana, Continuava ela. – Pele até escura, mas cabelos lisos, longos, olhos puxados, lábios carnudos. Poderia perfeitamente ser confundida com uma pessoa de origem indígena. Havia quem dissesse que parecia uma chilena. Achavam linda a sua cor – de jambo, de jabuticaba, de cravo e canela… – Agora, para completar, você me arruma essa Sophia. Uma típica “negra branquinha”, com nome europeu e que nem se esforçar para “enegrecer” mais um pouco mais consegue! Aquele cabelo dela não engana a ninguém. É até volumoso, mas nem liso, nem crespo. Não dá pra trançar e está longe de um Black Power. Ela dificilmente vai ser discriminada. Afinal, todos acham que ela é “moreninha”! Ficava eu cabreira, pensando no meu cabelo volumoso, de um crespo leve, na minha – suposta pouca melanina, comparada com o tanto que me sinto negra. Será que, quando o assunto fosse identidade racial, só me restaria a foice no sangue, visível apenas no teste comprova o traço falciforme?

Na cabeça daquela figura a solução pra esse tipo de “conflito” nem de longe passaria por diálogos, ou provocações pedagógicas a quem quer que fosse, mas levar tais mulheres para uma praia, de preferência providas de um excelente bronzeador, e fazer-lhes tranças naturais ou um belo “permanente” afro. Olha aí uma possibilidade de “enegrecê-las”!
Eu ficava pensando de onde viria tanto “empoderamento”, ao ponto de julgar as escolhas mais subjetivas e íntimas do outro.
Enfim, calou-se. Não por encerrar o assunto, mas para um gole de cerveja. Era molhar a garganta e continuar seu discurso…
Foi aí que o musico que tocava violão ao fundo do bar, terminou o sambinha que contradizia aquela discussão efervescente, com um último verso: “meu samba vai, diz a ela, que coração não tem cor”.

Luciana Pinto

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