RACISMO EXISTE
Prova número 02: Conversa ‘blaser’ entre senhoras

Estávamos na varanda da casa, numa pausa entre reuniões e estudos. Antes da mesa servida, um grupo de mulheres em roda conversava, jovens senhoras da média sociedade soteropolitana com várias estradas já percorridas. Entre aqui e acolá, não de repente, o palavrear encontrou o tema “homens”: os presentes, os ausentes e aqueles que só passaram.

Poderíamos ter ficado por ali, eu pensando até que aprendia alguma coisa ouvindo vozes da experiência. Boba… minha pessoa… O entretanto veio no momento em que uma delas chamou a atenção de outra sobre um certo homem, por onde ele está? Por que você terminou com ele? Só porque ele era negro? Meus olhos estranharam.

Mais uma vez, bem que poderíamos ter ficado por ali, ou não. A senhora inquirida desconversou. O no entanto veio quando ela reencontrou o rumo, a palavra para esclarecer o que ia em suas ruminações interiores: “mas querem saber de uma coisa?” – ela foi dizendo – “eu acho que todas as mulheres deveriam, ao menos uma vez na vida, ter um caso com um ‘negão’, sabem, um tipo macaco mesmo!” Curioso, ela omitiu o “brancas” depois de mulheres, que não são todas, mas só uma parte deste imenso território chamado Brasil.três_macacos

Fico pensando nos pobres animais que entram em quizilas humanas sem ter nada a ver com a história. Mas, enfim. Preciso confessar que eu fiquei profundamente constrangida, constrangida pela amiga que tinha me levado ali, constrangida com as mulheres em volta tentando atenuar e até calar a voz da outra: “ah, mas o cara era até legal…”. Constrangida com meu silêncio. O porém é que ninguém a calou, ninguém retrucou, nem mesmo eu.

Ouvi e tapei os olhos, por vergonha, rasa cordialidade, falsa redoma como se aquelas palavras não pudessem me atingir, eu quem sabe estivesse além delas, não estava. Várias ouviram e calaram a boca, por concordar, língua num instante sumida por conveniência. Outras nem sequer ouviram. Afinal, era apenas uma fala banal em meio a uma conversa banal de senhoras da média sociedade soteropolitana em uma tarde quente de sábado.

Eis o fato, seres humanos e macacos se distinguem, entre muitas outras coisas, porque nós, criaturas supostamente abençoadas por um sopro divino, nos fundamos em espaços e vivências culturais em relação. Aprendemos através do dito e do não dito e mesmo através do negado. E é assim, através de ditos toscos em meio a conversas banais e verdades desditas, negadas, não encaradas, que o racismo segue silenciosamente – às vezes nem tanto – em seu deserviço, criando marcas profundas e atravessando gerações.

Keu Apoema

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