RACISMO EXISTE
Prova número 01: Sandálias Ipanema

São ao menos quatro batalhões de mulheres ou um revezando-se em quatro. Cada qual com ao menos uma centena de moças desfilando em uníssono, passos iguais, ritmados ao som de uma música que sabemos, elas de fato não escutam, roupas iguais, sandálias iguais aos pés. Tudo combinando como nos tempos de uma infância já fora de moda, cores, texturas, movimentos, nada fora da risca. Alturas, magrezas. Igual num quase tudo para convencer que há sandálias Ipanema para lugares momentos vários: praia, balada, cidade ou dia-a-dia.

Mas, certamente, não há sandálias Ipanema para todos os tipos de mulheres. Aquelas que parecem autorizadas a usar as ditas são também de um tipo único: brancas, altas, magras e lisos os cabelos.

Uma centena de mulheres em batalhão, batalhão que desaparece e reaparece quatro vezes. Entre elas, caso um bom olho resolva procurar, existe uma única mulher negra, quiçás visível, numa primeira fila, no canto direito, destacada a cor de sua pele em um mar de corpos brancos, pés e mãos sem nenhuma nuança a mais de cor. Definitivamente, não existem mulheres baixinhas nem de formas mais arredondadas.Sandálias Ipanema

A única mulher negra visível me lembra um estranho prêmio de consolação, um qualquer coisa entre a invisibilidade e um certo desprezo. Um olho que de algum alto mira e diz: “já que não posso negar a tua existência, te coloco no devido lugar, parco, restrito, efêmero, por um triz incolor”.

Para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, a mensagem é clara: mulheres negras, índias, mestiças, redondas, pequenas, crespos os cabelos, não estão autorizadas a expor suas belezas e ser espelhos para si mesmas. Podem comprar, mas não vender. Mesmo sendo multidão, seus tons de pele, tamanhos, formas, cabelos, permanecem num fundo como música inaudível, invisíveis.

Agora, perguntas que não pretendem se calar: por que? Por que uma multidão de monótonos corpos brancos? Por acaso mulheres negras, índias e mestiças não estão autorizadas a comprar sandálias Ipanema? Ou por acaso nos consideram tolas bastante para consumir seus produtos sem percebermos as doses cavalares de racismo que escondem nas veias de quem as produz e de quem tenta vendê-las? Talvez assim seja.

Eu, no entanto, voz multidão, negra, crespo os cabelos, pequena, digo, não farei parte do batalhão que consome tanto quanto não faço parte do batalhão que pretende vender. Nem aceitarei bizarros e cínicos prêmios de consolação.

Keu Apoema

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