Fechamento sábado, dez 10 2011 

Todo projeto tem seu tempo, sua idade, seu ciclo de vida.

O Racismo Existe foi uma proposta que desenvolvemos ao longo de 2009, cujo objetivo foi evidenciar formas de discriminação presentes no cotidiano de homens e mulheres, adultos e crianças. No centro de nossas escritas estavam as “provas”, uma série de 23 textos trazendo vestígios, às vezes não tão velados, de práticas racistas, perpassando temas como: cabelo, miscigenação, mídia e propaganda entre outros.

Além desses, publicamos outros textos, com outras parcerias. Foi uma experiência e tanto. Mas em março de 2010 decidimos encerrar. Publicamos o último texto. Ainda acreditamos que o racismo é uma marca forte e muito presente em nossa sociedade, decidimos apenas continuar a luta e as reflexões em outras frentes, de outras maneiras.

Ao final, deixamos o blog no ar, fica como acervo, como fonte para aqueles que, aventurando-se por esses mares virtuais, pesquisem, estudem e reflitam sobre a questão racial.

Luciana Pinto e Keu Apoema

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Bronzeamento Artificial ou Filtro de Proteção domingo, mar 7 2010 

Racismo Existe
Prova 22: Negros também têm pele

Ricardo era o marido negro de uma garota branca, loira, mais precisamente. Todos os domingos iam à praia. Ele, ela, suas irmãs, um grupo enorme, que esperava o fim de semana com ansiedade e curtia o verão com alegria.

Jogo de vôlei, cervejinha, comidinhas de praia e bom papo. Era sempre assim. Ficavam até que o sol se escondesse atrás dos prédios e a sombra tomasse conta da areia. Daí, o vento já era frio e os comerciantes já começavam a desmontar as barracas. O anúncio de que era hora de ir pra casa e começar a se arrumar para mais uma semana que se iniciava.

Certo domingo, porém, entre uma das várias partidas de vôlei, uma amiga da turma da praia dirigiu-se ao rapaz em alto e bom som: “por que você pára no intervalo do jogo pra colocar bronzeador? Você acha mesmo que faz alguma diferença, ou usa só pra gastar?” Silêncio total. Lá na praia e aqui, agora. Por um instante fiquei mesmo sem saber como continuar.

Aí fui buscar em meus arquivos, a sensação de como me senti ao ver a cena. Criança que acompanhava o grupo, observei atenta, mas ainda esboçando naturalidade. O que haveria demais? A pergunta foi calada pela introjeção natural da idéia que, defato, talvez a adulta tivesse razão e não fizesse diferença para uma pessoa negra usar ou não bronzeador. Afinal, sua pele não conseguiria expressar bronze, tão escura já o era.

Anos depois, a mesma menina, que àquela altura, adulta, há muito já se tecia negra, cultivava o saudável hábito de caminhar em um parque público da cidade, acompanhada de uma amiga. Esta, cheia de cuidados com a pele, para não ter sinais de envelhecimento precoce, não despelar, não desidratar, ao encontrar com outra parceira de caminhada, pergunta: “por que você demorou?”. “Ah – responde ela – desculpe, mas é quando cheguei em baixo do prédio, lembrei que precisava passar protetor solar, aí voltei em casa por alguns minutos”.

A amiga afirma categoricamente: “é, é bom mesmo você ter esse cuidado, porque, afinal, negros também têm pele”. Em tempo que isso desconstruíra a idéia introjetada no passado de que negros passam bronzeador ou outros produtos de pele só pra gastar, o tom de voz não veio menos carregado do discurso implícito de que nós negros temos mais resistência ao sol, mas mesmo assim podemos e até precisamos, “nos dar ao luxo” de usar o protetor solar.

Algo de natural, alguém leria. Há um fato concreto em dizer que pessoas de pele branca precisam de mais proteção. Mas, tendo em conta essas falas, será que passa só por aí a discussão da relação entre o poder e o precisar usar o que se quer, onde e quando se quer?

Talvez eu esteja aqui, para muitos, apenas estimulando neuroses, com excesso de patrulhamento, para outros, só tenha lançado mais uma questão, tentado ver o que está por trás de falas tão corriqueiras e na maioria das vezes desprovidas de malícia e que, portanto, descaracterizam, para a maioria do senso comum, a internalização do racismo no imaginário do senso comum.

Mas voltando à questão da pele: e você?! Qual o seu “filtro de proteção”?!

Por Luciana Pinto

Crédito foto: http://thumbs.dreamstime.com/thumb_347/1230263188A7xAfs.jpg

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